Nem boneca de luxo, nem de louça.
Boneca de pano sem rosto,
deixada num canto, inanimada,
no olhar dos saltimbancos cegos.
Olhares desalmados,
anuviados de valores: pigmentos do
machismo opressor.
Poema interrompido
nas palavras sequestradas,
nos versos da escolha sonegada.
Livro fechado no chão, a boneca
que não pode ser boneca...
Escrito na boneca de pano,
o poema visual do horror exilado,
solitário, como se fosse de alguma
alma vagueadora,
sem paz, sem gozo no avesso de
uma lua sem luar.
Desnudo da dignidade .
Estou em um corpo machucado,
besuntado pela nódoa
da inconcebível barbárie humana,
O silêncio grita em cada morte.
Tudo é indigno a uma boneca
de carne. No peito, o coração pulsa,
sofre e chora, sob o manto escuro
do desamparo.
Quem ouvirá?