Quando os termos "escritor" e "autor" aparecem, automaticamente cada pessoa cria uma imagem mental, resgatando as referências que estão no subconsciente. Alguns podem visualizar o estereótipo de uma pessoa mais velha, de óculos, sentada à mesa, com seus papéis e até mesmo uma máquina de escrever. Outros, talvez, consigam identificar uma pessoa mais jovem, com a camisa entreaberta, fumando um cigarro, com o computador à frente. Seja qual for a imagem que surge na mente, a verdade é que, hoje, toda e qualquer pessoa pode ser um autor e publicar suas obras.
A autopublicação, ou seja, aquela realizada pelo próprio autor, de forma independente, é uma prática que vem crescendo mundo afora. Não é diferente em Bauru. O professor universitário de roteiros Álvaro Cruz, 32 anos, acabou de publicar seu primeiro livro através da plataforma da Amazon criada especialmente para e-books, a Kindle Direct Publishing (ou Publicação Direta Kindle).
"Eu uso o Kindle, que é um leitor de livros digitais, há bastante tempo, sobretudo para leituras acadêmicas. Ano passado, conheci o Amazon Kindle de Literatura, um concurso que eles fazem para todos os materiais publicados nessa plataforma", afirma Cruz. Apesar de já ter escrito diversos roteiros para televisão por um bom tempo, o professor ficou imerso nos textos acadêmicos. "Nunca havia publicado nada que fosse literário de fato, e sempre gostei do gênero da ficção", declara.
Foi então que a história de "Caso o país acabe, envie-me a Haruki Murakami", primeira obra autopublicada de Cruz com o intuito de concorrer ao prêmio, surgiu, nesse misto de ambiente acadêmico com surrealismo. "Estava fazendo alguns exercícios de criação com meus alunos de Bauru e me veio a ideia de escrever uma história sobre uma distopia com realismo mágico, inspirado pelos textos de Murakami, grande nome da literatura japonesa", conta.
A narrativa desenvolve-se a partir de uma árvore que nasceu no meio de um apartamento localizado em um prédio de alto padrão. "O universo de Murakami trabalha com o mundo real, mas com pitadas de acontecimentos estranhos. No meu livro, por exemplo, criei personagens que transformam-se em árvores e outros que viram bois."
Alfa Beta do amor
Regiane Folter, 28 anos, atua na área de Marketing, é graduada em Jornalismo e encontrou mais uma paixão na literatura. Os quatro anos que a autora passou em Bauru foram transformados em algumas das crônicas e contos contidos em "AmoreZ", seu livro autopublicado digitalmente.
"Tive a ideia da ligação com o alfabeto para transmitir a diversidade do amor, como é possível senti-lo de diferentes formas e como não existe só uma forma de amar", explica Folter. Por isso, cada título começa com uma letra do alfabeto.
Para a paulista que passou por Bauru e atualmente está no Uruguai, as plataformas para autopublicação são facilitadores para quem tem interesse em adentrar o mundo literário.
"No meu caso, trabalhei com duas mulheres que me ajudaram na diagramação e com ilustrações, mas muita gente faz tudo sozinho. É possível devido às ferramentas que estão disponíveis no próprio site", diz.
E O PAPEL?
Se de um lado existe a facilidade da publicação e a possibilidade de obras de autores independentes entrarem em circulação, por outro, as dificuldades de divulgação e de vendas também precisam ser consideradas. "É uma boa opção para quem não consegue tirar os trabalhos de dentro de casa, mas é preciso manter o pé no chão, porque as coisas não acontecem como um passe de mágica", assegura Álvaro Cruz.
Regiane Folter tem um pensamento semelhante. "É bem diferente ser um autor conhecido e ser independente. Se eu não publicar nas redes, enviar para as pessoas, sozinho, o livro não vai se vender", diz a jornalista.
Cruz garante que é possível a coexistência de todas as formas de leitura. "Eu gosto o Kindle, mas não abandono o livro físico por ele".