11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Do Übermensch de Nietzsche ao grande homem de Hannah Arendt: o super-homem da república que nasceu de cada um de nós

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 3 min

Quisera este autor não ter de escrever este texto, e também quisera que, tendo de escrevê-lo, não fosse assim, demasiado sintético. Mas, nem tudo é como tem de ser. Vamos por partes.

Era de fato esperado que, numa nação colonizada e habituada à violência, ao genocídio e aos conflitos, as coisas não seriam fáceis no futuro, como não foram no passado. E, a despeito da cordialidade mal compreendida e dos espetáculos que orgulhosos exportamos, não somos, nem de longe, o paraíso que desejamos ser, e assim o é, de início, por faltar no debate geral um acordo semântico imprescindível: que será o paraíso?

Não se presumiria um acordo uníssono entre 210 milhões de nacionais, é evidente. Mas também não se presume seja razoável a crise civilizatória em que vivemos hoje nessas terras. O falso antagonismo entre as posições políticas tornou o que, por razões desconhecidas, era dificultoso, em utópico: um país de todos. Pergunte a qualquer um se concorda que devêssemos viver em bem-estar social, com pleno emprego, altos salários, e garantia de direitos sociais básicos a todos e duvido que homem algum discordará.

Mas alguns, muito mal intencionados, não hesitaram em nomear nossos sonhos como grandes males, como coisa dos inimigos, e, nos disparos de mensagens, fizeram de uma mentira, repetida sem fim, uma verdade absoluta. Como dois irmãos birrentos que lutam por um pedaço de doce, tivemos de chamar um adulto da espécie, para resolver todos nossos problemas: o super-homem. Chamado, foi eleito com 57 milhões de votos.

Ora, se em quinhentos anos não fomos capazes de promover satisfatoriamente o que a sociologia chama de espírito de organização espontânea, alguém teria de nos salvar, não é? Talvez por isso é que fomos às urnas nos entregar a uma figura, o que não poderia ser pior sinal de fraqueza. Se somos fracos, ele, o super-homem, é forte.

O "pulso firme" dos tiranos não é característica despropositada para um líder em nossa nação. Num país que nasceu e cresceu com a lógica da violência colonial, de destruição, de imposição de força e, notadamente, de escravidão, sugerir que fossemos cordiais seria um desatino.

E, para o nosso grande líder, é como no imaginário do homem superior de Nietzsche: não há no super-homem lugar para a adoção da moral dos escravos, devendo este adotar a moral dos nobres, sem as características da compaixão, do arrependimento, e outras, tidas como de homens fracas. Parece antagônico ao homem que vende tosca simplicidade em imagens montadas, não é?

Para a filósofa Hannah Arendt, como descreve o professor Helton Adverse em seu artigo Totalitarismo e República, há no totalitarismo uma destruição do mundo comum que resultava em uma desertificação do espaço público, e tal desertificação tem como contrapartida a redução dos seres humanos a um único "grande homem".

Desertificação nos tempos do super-homem da República deixa até mesmo de ser uma metáfora, não é? Nossas (finadas) onças-pintadas que o digam. Mais que uma figura do super-homem, nosso "transcendente da República" é fruto da nossa redução enquanto cidadãos, como sujeitos da rés-pública, sujeitos de nossas liberdades, de nossas vontades, que entregamos, fielmente, como numa servidão voluntária, ao homem que nega a compra de vacinas em tempos de pandemia sob a singular justificativa de que tal escolha cabe a si, dono máximo do poder.

Ora, ele tem de ser forte! Se estávamos distantes de uma efetiva democracia republicana, tornamo-nos, o que é muito mais grave, incivilizados. Tornamo-nos menos sujeitos, e criamos um sujeito que tudo desertifica, sob o imaginário do poder da força. É a nossa estupidez onisciente e onipresente, e tem lugar em todo canto de nossas terras, até que um iluminismo à brasileira nos salve das trevas.