Mesmo sendo uma segunda-feira, o sítio estava com cara de quarta-feira de cinzas. Céu bastante nublado e os moradores reclamavam a falta de sol pela notícia de que haveria um eclipse. A professora da escolinha explicava para um grupo de crianças tratar-se de um fenômeno da natureza fenômeno este que, de tempos em tempos, assusta homens, mulheres, crianças e animais. Lembrou também que era necessário que todas as pessoas naquela manhã procurassem se proteger, não olhando diretamente para o sol, mas se a curiosidade fosse muita, alguns cuidados precisariam ser tomados com urgência, como por exemplo recomendava-se o uso de protetores para os olhos, tais como vidros enfumaçados ou garrafas de cor escura. Quando a palavra cuidado foi pronunciada, novo susto tomou conta dos meninos. Um deles pediu licença para a professora para sair da sala e, concedida a permissão, foi procurar um homem de longas barbas brancas e que se apoiava em um cajado.
Esse homem era conhecido naquelas redondezas como um sabichão das coisas da natureza. Perguntando sobre a razão daquela estória que ouviu o bom homem tratou de explicar, explicações que nunca regateava ao atendimento dos curiosos de sempre. Disse ele com toda a sabedoria e experiência da longa vida, tratar-se de um eclipse parcial do sol e que recebia esse nome porque o sol não ficaria totalmente encoberto. O menino não entendeu bem a palavra eclipse e ele, percebendo a natural ignorância, explicou também que esse fato ocorria quando a lua ficava entre a terra e o sol.
Vendo a curiosidade demonstrada pelo menino, explicou também que no sítio em que eles moravam o fenômeno iria acontecer após o meio-dia, conforme estava previsto. Ainda mais assustado com aquela estória, o menino correu para sua casa e anunciou aos pais tudo o que aprendera sobre eclipse. Os pais já conheciam o fenômeno ocorrido em outras épocas e agora, colaborando com a curiosidade do filho e munidos dos petrechos de proteção, passaram a olhar para o céu para ele assistir pela primeira vez em sua vida um dos mais belos e intrigantes encantos da natureza. Um pouquinho antes das onze horas nuvens passavam ligeiras deixando poucos raios do sol. O céu, além de nublado ficou mais escuro. O verde do jardim assumiu uma roupagem roxa tal qual aquelas usadas na Semana Santa para cobrir santos e altares das igrejas. O galo carijó, em horário totalmente estranho para ele, passou a entoar seu cantar determinando o recolhimento dos frangos e galinhas ao tradicional poleiro nas árvores. Pássaros procuraram seus ninhos.
Vaquinhas que pastavam ao longe voltaram ao curral. Quando a lua cobriu parte do disco solar, sua sombra projetou-se sobre a terra o sítio que até então era vivo, sedutor, alegre e festivo passava pela transformação do dia em noite. Assim que a lua foi terminando a sua trajetória e a terra foi novamente clareando, o galo carijó no alto do poleiro, como guardião do terreiro, emitiu estridente cocorocó, determinando aos seus subordinados e agregados o imediato retorno à vida diária, convocando frangos, galinhas, pássaros, patos e marrecos para a primeira refeição que ele ainda não sabia ser, se era da manhã ou da tarde em razão daquele transtorno ocorrido na mãe natureza.
Para o menino e seus coleguinhas, anteriormente assustados, ficou a lição do sabichão e do fenômeno que trouxe para eles, naquela manhã daquele dia, um ensinamento para o resto de suas iniciantes vidas. Ao despedir-se do menino, foi lembrado de que ao final de dezembro novos fenômenos deveriam ocorrer e que ficasse alerta.