09 de julho de 2026
Entrevista da semana

'Ser diferente é extraordinário'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

"Tudo começa com um sorriso". Os dizeres da camiseta de Iarley Bermudes Vargas, de 13 anos, já adiantam a forma pela qual o adolescente encara a vida. Ele, que já passou por 18 cirurgias para tratar fissura labiopalatina bilateral e fenda nas duas pálpebras junto ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho/USP), em Bauru, possui uma autoestima gigante e até ministra palestras motivacionais. O discurso inspirador fez com que Iarley ganhasse a Internet. O garoto conta com 18 mil inscritos no seu canal do YouTube (Iarley Bermudes) e 22,7 mil seguidores no Instagram (Iarley Bermudes). "Ser diferente é extraordinário", completa.

Inclusive, Iarley gosta de ser comparado a Auggie Pullman, do longa "Extraordinário", que conta a história de um garoto com uma deformidade facial que passou por 27 cirurgias. "O filme também mostra a importância do apoio da família, sem o qual eu jamais chegaria tão longe", diz.

Filho do motorista de aplicativo Wesley de Oliveira Vargas e da dona de casa Cristiane da Penha Bermudes, o adolescente tem três irmãos mais novos: Miguel, além das gêmeas Yasmin e Lívia. Ele nasceu em Vitória, no Espírito Santo, mas esteve em Bauru aos 10 meses, quando se submeteu à sua primeira cirurgia e precisou levar 189 pontos. Há três semanas, a família optou por se mudar para a cidade onde o garoto faz o tratamento.

A seguir, Iarley narra a sua trajetória, marcada por lutas e, principalmente, glórias. Confira:

Jornal da Cidade - Como você chegou ao hospital Centrinho?

Iarley Bermudes Vargas - A minha mãe soube que eu tinha fissura labiopalatina bilateral quando estava grávida de seis meses. No momento em que nasci, ela descobriu a fenda nas duas pálpebras. A partir daí, a Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio Palatal (Profis), em Vitória, nos encaminhou para o Centrinho, em Bauru.

JC - Você já passou por 18 cirurgias, certo? Qual considera a mais difícil?

Iarley - A última, em 2015. O médico colocou uma espécie de bexiga na minha bochecha e aplicava soro. Serviu para expandir a pele. Eu e a minha mãe precisamos ficar quatro meses em Bauru. Na época, nós gastamos muito dinheiro com hospedagem e alimentação. E eu ainda passarei por diversas outras cirurgias até os 30 anos, motivo pelo qual resolvemos nos mudar para a cidade. 

JC - Sente ou já sentiu medo?

Iarley - Quando eu era mais novo, não tinha noção da complexidade das cirurgias. Agora, mesmo ciente de tudo, não sinto medo, porque confio em todos os médicos do Centrinho.

JC - Chegou a sofrer bullying na escola?

Iarley - Eu nunca sofri bullying na escola, mas já fui vítima de cyberbullying, que é bastante comum nos games e nas redes sociais. Certa vez, fazia uma live pelo Facebook e falaram que tinha um olho maior que o outro. Apelei para o bom humor e respondi que a câmera da pessoa estava torta.  

JC - Isso o motivou a ministrar palestras e, de repente, ajudar outras pessoas?

Iarley - Os meus pais me estimulavam a usar a minha história como exemplo de superação e eu comecei a ministrar palestras motivacionais em 2018, depois que participei do Hoje em Dia, da TV Record. De lá para cá, foram 450 apresentações em escolas, principalmente. Com a pandemia, decidi adaptar as palestras para o mundo virtual. No YouTube, posto um vídeo ou outro. O meu forte mesmo é o Instagram, onde publico de quatro a 12 stories por dia.

JC - As suas palestras devem ter ajudado muita gente. Destacaria alguma história?

Iarley - Certa vez, um policial militar do Rio de Janeiro sobreviveu a um tiro na cabeça, mas ficou com sequelas. A sua esposa entrou em contato comigo e enviei um vídeo a ele, que mostrou para toda a corporação. Portanto, eu não ajudo apenas crianças e adolescentes, mas adultos também.

JC - A que atribui a sua popularidade?

Iarley - Além de ajudar na autoestima, eu também falo muito sobre jogos digitais, outro hobby que tenho. Tanto que, desde 2016, participo do Brasil Game Show (BGS), considerada a maior feira do gênero da América Latina. No evento de 2017, entreguei um troféu para o presidente da Xbox, Phill Spencer. No ano passado, ministrei palestras nos stands do Banco do Brasil e AOC.

JC - Você se considera um adolescente com a autoestima elevada?

Iarley - Com certeza. A maioria dos adolescentes busca se encaixar em algum grupo e uma eventual falha acaba comprometendo a autoestima. Como eu sempre soube que sou diferente, nunca quis seguir qualquer padrão. Por isso, aconselho os jovens a assumirem a sua verdadeira personalidade. Ser diferente é extraordinário.

JC - Gosta de ser comparado ao personagem do longa "Extraordinário"?

Iarley - Sim. Na verdade, eu ganhei fama depois da exibição do filme, que é tão fiel à realidade que retrata o ponto de vista de toda a família, não só do portador daquela síndrome rara. O pai também jogava videogame com o filho, assim como acontece em casa. Muita gente fala que sou o 'Extraordinário' da vida real.

JC - Quais são os seus planos para o futuro?

Iarley - Quero continuar com as minhas palestras e me tornar juiz de Direito. O meu pai fazia o curso, mas desistiu por causa do meu tratamento. A paixão dele inspirou a minha escolha.

JC - Qual mensagem gostaria de deixar?

Iarley - Como embaixador da Smile Train, instituição filantrópica internacional que trabalha com a fissura labiopalatina, eu aconselho as pessoas a sempre levarem o sorriso a quem precisa.