08 de julho de 2026
Articulistas

Oficina

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

A vida atravessa períodos de céu. Um cinza assumido de seriedade. Um azul em abusos de beleza. Entre um e outro, o Criador monumentalizou seres, objetos convocados a ensinamentos. A semente nos ensina o significado do claustro, da solidão. A folha, receber convocatória da queda sem alardes. A água, verbal, a percorrer os obstáculos.

Dia desses, fotografei o tempo. Embalagem de goiabada cascão, cuja validade me berrava urgência. Digeri-la significava consumir o ano. Consumir o que me consumiu. Ano novo, renovam-se as promessas. A vida, vasta oficina, requer reparos constantes. Reconhecer atitudes azinhavradas. Calafetar fissuras ao que nos une.

O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou... Ao novo aos que, nascidos ao redor de convicções definitivas, vivem, agora, em estado provisório. Aos que recusam flores de plástico para enganar a terra. Ano novo a quem bebe café, compreendendo que a densidade quente enche o olfato, sem a falsa promessa das rosas. Aos que diferenciam que desvelar é atividade do corpo. Revelar, tarefa dos olhos. Amar é silenciar os olhos. Distinguir da fala que conversa bocas tônicas para ouvidos átonos.

Ao novo, jamais trair o velho. Retratos dos antepassados, por sortilégio, imprimem saudade. Igualmente às estrelas, brilham apontando caminhos. Buscá-los no firmamento é o ideal para lhes dizer que o tempo ainda é o de sempre a quem nasce só para depois ferir a gente com sua ausência.

Ao novo aos poetas, aos professores de Literatura que, mesmo com o estoque de beijos comprometido, não sonegam bocas de luares para os que amanhecem mendigos de poesia. Ao novo aos boêmios, apreciadores de pássaros que, noturnos, trazem sol na voz. Ano novo aos insatisfeitos, por descompreenderem que a orelha decepada de Van Gogh era a esquerda, não a direita. Ano novo aos operários, fãs ou não de Chico, que buscam vagas em construção. Ano novo ao capitalista que industrializou expectativas, fazendo-as funcionar no limite da exaustão. Ao agiota, garantidor último do que juro pagar com juros.

Ano novo ao tesão que escorre e penetra em moitas de corpos. Aos que carregam beijos usados em bom estado de conservação e aos que os conservam, em sentinela, nos lábios. Aos que transportam felicidade em gravidez. Aos que deitam preguiça morna em lufadas frescas de gostosas. Às bocas afoitas, desconhecedoras da quietude do olhar dos bois. Aos calmos que vedam restos de impaciência chegada com lentidões de poentes. Às almas dos escravos que se vingam no açucareiro fabricando gordos, gordos.

Ano novo a quem pegou um tecido branco, desenhou cuidadosamente uma folha e pintou-a de verde para oferecer a um coração maduro. A quem leva a bagagem confusa e desordenada da vida acreditando no diferente daqui pra frente.

O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e antologias da Língua Portuguesa.