11 de julho de 2026
Cultura

Assis Ângelo, cego há sete anos, lança cordéis sobre a pandemia de Covid-19

Ivan Finotti
| Tempo de leitura: 2 min

Após passar a vida inteira estudando a arte popular brasileira, em especial a nordestina, e acumular cerca de 8 mil folhetos de cordel, o jornalista e poeta Assis Ângelo resolveu se aventurar na composição de alguns. Aos 68, Ângelo lançou quatro folhetos neste ano, e todos eles se referindo à epidemia que assola o País.

"Coronavírus: Piolho do Cramunhão Faz o Mundo Todo Tremer", "Repórter Entrevista Piolho do Cramunhão", "Serpente Quer Pôr Ovo no Coração do Brasil", e "Jornalismo e Liberdade nos Tempos de Pandemia" são os quatro títulos escritos.

Cramunhão, para que não está familiarizado, é o Diabo, Satanás, Belzebu, o Capeta, enfim. Ou, em algumas regiões, pode ser um diabinho entregue pelo Diabo para servir determinada pessoa pelo resto da vida. Já piolho do Cramunhão foi a forma que Ângelo encontrou para se referir ao coronavírus.

Na entrevista que dá ao cordelista em um dos folhetos, o piolho fala de suas diabruras: "Quem chora é bicho mole/ Não merece salvação/ Comigo é diferente/ Sou macho sem coração/ Pois eu pego, mato e como/ Como faz bom gavião".

Paraibano de João Pessoa, o poeta lembra quando ouvia cordéis ainda menino, nas feiras da cidade. "Os vendedores ficavam recitando as estrofes e, quando chegavam na hora H, eles paravam. Para que as pessoas comprassem para ler o final das histórias. Isso me marcou muito", conta ele, em seu apartamento nos Campos Elíseos, região central de São Paulo.

Ali, entre os milhares de itens de seu acervo, Ângelo vive em escuridão total e solitária há sete anos. Ele teve deslocamento de retina e perdeu completamente a visão dos dois olhos.

"Não teve pancada nem acidente. Eu estava apresentando um projeto no Rio. Estava no palco lendo um folheto sobre Luiz Gonzaga. No meio, passei a entender menos, parecia que tinham formigas andando nos meus olhos. Quando terminou, comecei a chorar. Estava cego."

O poeta se consultou com diversos especialistas, fez "sete, oito, nove" cirurgias, mas nada foi recuperado. "Dias depois, minha mulher me abandonou."

Ângelo começou a carreira de jornalista na Paraíba, mas desde 1976 está radicado em São Paulo, onde trabalhou como repórter na Folha de S.Paulo, no Diário Popular e foi chefe de reportagem política no Estado de S. Paulo. Passou ainda pela rádio Jovem Pan e pelas TVs Globo e Cultura.

Pode-se dizer que São Paulo entrou em seu sangue. Um de seus estudos, fruto de 23 anos de trabalho, foi o "Roteiro Musical da Cidade de São Paulo". A pesquisa, que resultou numa exposição no Sesc em 2012, reunia 3 mil canções que citam São Paulo.

SERVIÇO

 

É possível ter acesso aos "Cordéis de Assis Ângelo" através do e-mail eduribeiro@josnalistasecia.com.br /. Custam R$ 12,50 (de 12 a 20 págs.). Editora: Rouxinol do Rinaré.