08 de julho de 2026
Entrevista da semana

'Cresci com o comércio e vi o comércio crescer'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Rua de terra, trânsito intenso de carros e carroças e disputa para exibir a vitrine mais luxuosa. Esta era a Batista de Carvalho em 1957, quando o então menino José Vitório Dota Filho começou a trabalhar no comércio bauruense. Mesmo depois de se aposentar, em 1994, ele não parou até hoje, aos 74, contabilizando cerca de seis décadas neste segmento. Só na Excelsior, loja de trajes masculinos fundada por Dota em 1974, o comerciante já atende à quarta geração da sua clientela.

Com os olhos marejados, o empresário diz que o comércio funcionou como uma escada, afinal, o ajudou a ascender na vida. Acompanhado dos pais José Victório Dota e Ana Pietroforte Dota, além dos oito irmãos, ele saiu da área rural de Avaí, onde nasceu, rumo a Bauru. A família sonhava com melhores oportunidades.

O comerciante, de fato, conseguiu o que queria e, ainda por cima, constituiu uma família que o enche de orgulho. Em 1975, ele se casou com a funcionária pública aposentada Inês Godoy Dota, de 73, com quem teve os filhos Rafael e Débora, bem como a neta Júlia. "Eu sou a amante dele, porque a esposa é a loja", brinca a companheira de Dota, que acompanhou parte da entrevista.

Abaixo, o profissional revive a sua história, que muito se mescla com a do comércio bauruense, pelo qual ele sente imensa gratidão. Confira alguns trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor nasceu em Avaí. O que o trouxe para Bauru?

José Vitório Dota Filho - Nasci na área rural de Avaí e fiz até o 3.º ano do Grupo Escolar naquela cidade, mas nós nos transferimos para Bauru no final de 1956. O meu pai queria que os seus nove filhos progredissem na vida e não demorou muito para que eu começasse a trabalhar no comércio.

JC - Qual foi o seu primeiro emprego?

Dota - Aos 11 anos, trabalhei como mirim na extinta A Caprichosa, que vendia roupas masculinas e femininas. A empresa, situada na quadra 2 da rua Batista de Carvalho, pertencia ao senhor Abdalla Mauad, que me contratou para fazer entregas - principalmente, na Estação Ferroviária, onde a clientela de outras cidades descia dos trens para pegar os produtos. Às vezes, os pacotes eram maiores do que eu. Ao lado da Caprichosa, havia uma loja que vendia materiais de caça e pesca. Lá, comprava pólvora para produzir bombinhas. Logo, conseguia conciliar o emprego com a infância propriamente dita. 

JC - Como era a Batista de Carvalho naquela época e o que mudou de lá para cá?

Dota - Da quadra 8 em diante, não havia asfalto, apenas calçamento. Liberado, o tráfego de veículos e carroças tanto subia quanto descia. As lojas, por sua vez, disputavam para exibir a vitrine mais luxuosa. A partir da década de 80, boa parte dos comerciantes decidiu investir em shoppings ou boutiques fora da região central da cidade e o perfil do local começou a mudar. Mesmo assim, a Batista nunca deixou de ser um dos polos mais importantes do município. Cresci com o comércio e vi o comércio crescer.

JC - Como o comércio contribuiu na vida do senhor?

Dota - Em meados de 1963, eu saí do meu primeiro emprego para fazer o serviço militar, que me absorvia o dia inteiro. Em 1 de março de 1966, comecei a trabalhar como faturista em um laboratório na quadra 9 da rua Primeiro de Agosto, intitulado Instituto Pinheiros. Antes, cursei o ginásio no Senac, que preparava os alunos para atuar no comércio. Em seguida, passei pelo Curso Técnico em Contabilidade do Liceu Noroeste. Em 1968, já formado, entrei na Arapuã, que ficava na quadra 2 da Batista de Carvalho, para desempenhar a mesma função. Um ano depois, me tornei gerente de crediário. Após certo tempo, recebi um convite de uma grande rede de lojas. Três anos depois, virei gerente daquela empresa. Em 1974, fundei a Excelsior - inicialmente, localizada na quadra 3 da Batista. Em 1994, abri uma segunda unidade na quadra 21 da Capitão Gomes Duarte, no Altos da Cidade, onde permaneço até hoje. Fechei a loja do Calçadão em 1996 por questões financeiras.

JC - O senhor teve alguma decepção com o comércio?

Dota - A única frustração que eu tive nos últimos 63 anos foi o fato de jamais ter subido a Batista atrás do Papai Noel, acompanhando os meus filhos. Com a Praça Machado de Mello cheia de gente, o Bom Velhinho chegava de trem e passava pela rua em um conversível. A Banda da Polícia Militar e a população o seguiam até a Rui Barbosa.

JC - Alguma experiência inusitada?

Dota - Certa vez, uma empresa de propaganda me ligou pedindo para vestir um modelo com requinte. Em seguida, chegou uma van com toda uma equipe e eu tive a impressão de que conhecia o rapaz. Quando ele partiu, as minhas funcionárias me perguntaram: qual é a sensação de vestir o Márcio Garcia? Fiquei duas horas com o cara e não o identifiquei.

JC - O senhor se aposentou em 1994, mas não parou de trabalhar. Quando pensa em fazer isso?

Dota - Eu ainda não sei quando deverei parar, mas já percebi que as orquídeas sentem a minha falta.

JC - Além de cultivar orquídeas, o senhor tem outro hobby?

Dota - Pescar. Certa vez, eu participei de uma pescaria de rodada, na qual vários barcos se reúnem como se fizessem um arrastão, mas apenas varas eram usadas. Algo enroscou no meu anzol e todos os colegas aguardaram até que conseguisse retirar da água: era uma espingarda. Levei uma vaia danada. A história até garantiu uma reportagem do Jornal da Cidade, que a publicou em 1998.

JC - O que o senhor aprendeu com o comércio?

Dota - Eu aprendi a valorizar os clientes e muitos deles se tornaram grandes amigos. Tamanha possibilidade, na minha opinião, não existe em qualquer outra profissão.