07 de julho de 2026
Esportes

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Os gêmeos Marcos e Matheus Silva Santos, de dez anos, saem três vezes por semana da casa humilde localizada na área rural de Santana de Parnaíba, a 42km da capital paulista, para terem contato com um esporte que costuma pertencer a uma outra realidade econômica. Os dois, assim como outras centenas de crianças pelo Brasil, passaram a se familiarizar com o tênis nos últimos anos graças aos vários projetos sociais que fazem a modalidade se aproximar de um público que não estava acostumado a ver partidas nem mesmo pela televisão.

Os irmãos integram uma turma de 168 crianças do Raquetes para a Vida. A iniciativa funciona junto à escola pública Aurélio Gianini Teixeira. "Do que eu mais gosto no tênis é de bater forte na bolinha para fazer com que ela volte rápido para o outro lado da quadra", contou Mateus. "Eu sempre fico ansioso antes de ter aula. Tênis é um esporte difícil porque você tem de correr e se preparar para rebater", acrescentou Marcos.

Colega deles no projeto, Giovanna Cavalcante, de nove anos, se tornou tão apaixonada pela modalidade que chegou até mesmo a viajar ao Rio Open para ver de perto uma competição profissional "Eu tenho aulas ao meio-dia, mas eu já acordo com pressa para ir. Começo a me arrumar umas 10h da manhã para poder chegar logo", contou. O tênis faz parte da rotina dela há dois anos.

O criador do projeto social, Adriany Carvalho, fala com orgulho da iniciativa e do quanto aos poucos a modalidade perde o status de inacessível. "Essa ideia de que o tênis é de elite é um mito. Eu sou o próprio exemplo disso. Sou filho de retirantes. Tive poucas oportunidades, mas pude virar boleiro de um clube aos 10 anos. Tomei gosto pelo esporte, dei aulas ainda adolescente. E me formei em educação física pensando exatamente em virar professor de tênis", contou.

Além de popularizar o esporte, o projeto vem apresentando resultados palpáveis na educação dos alunos, que são cobrados em termos de disciplina e boas notas como contrapartida para participarem das atividades em quadra. A escola que sedia o projeto deu um salto no último resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb): saiu da 27ª para o posto de 2ª melhor escola do município.

Também amparado pelo apoio de patrocinadores e doações, o projeto Wimbeledom levou para a periferia de Porto Alegre um pouco do nome do torneio mais charmoso do esporte. O nome da competição inglesa de Wimbledon ganhou umas letras a mais para fazer referência ao bairro Belém Novo, onde há bolsões de pobreza no extremo sul da capital gaúcha. "É claro que tem pouquíssimas quadras públicas em Porto Alegre. Mas tem. Quando a gente deseja algo, não interessa onde está, dá para acontecer", explicou Marcelo Ruschel, fundador do projeto.

Ruschel precisou tirar dinheiro do bolso para dar os passos iniciais à iniciativa, em 2000. Doações e recursos vindos de Imposto de Renda ajudaram na verba. "Não compramos bolinha ou raquete, nós ganhamos. E hoje as crianças têm orgulho de ir para o colégio com a raqueteira nas costas, e não com a mochila", comparou.

Antes da pandemia, atendia ao mesmo tempo cerca de 200 crianças e adolescentes. O Wimbeledom oferece ainda diversas oficinas, envolvendo artes, aprendizagem e incentivo à leitura, além de exercícios de respiração e meditação e alimentação. "O tênis é o chamariz para as crianças entrarem no projeto. Elas se apaixonam instantaneamente pelo tênis e isso faz com que elas queiram estar lá todos os dias", contou Ruschel.

O sucesso do projeto é garantido pelos doadores e pelos "embaixadores", figuras da elite do tênis nacional, como Thomaz Koch, Fernando Meligeni e Bruno Soares. Em 2014, o Wimbeledom foi reconhecido pela Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), com o prêmio "ATP Aces of Charity".