Camilla de Lucas tinha três amigos na escola particular onde estudou, no Rio, na adolescência. "Lembro-me perfeitamente do dia em que todos eles faltaram, e eu não tinha com quem lanchar. Fiquei meia hora dando voltas pelo colégio, porque sentia vergonha de passar esse tempo sentada sozinha", conta a jovem, hoje com 25 anos, ao rememorar o isolamento sofrido por ser uma das duas únicas pessoas negras da sala.
Quase dez anos depois de concluir o ensino médio, ela olha para o passado de um patamar bem diferente. Um dos mais recentes fenômenos das redes sociais no Brasil, a "blogueirinha real", como ela se descreve com doses de ironia, soma mais de 6 milhões de seguidores, juntando Instagram, Tik Tok, YouTube e Twitter, e é vista como expoente da nova geração de influenciadores por pesquisadores da área.
"Não entendia porque me achavam feia. Mas aí o tempo vai passando, você amadurece e percebe que as pessoas estavam levando em conta a cor da sua pele. Chegava na sala, me zoavam e, naquela época, a única opção era engolir o choro", comenta Camilla. Vaidosa desde menina, sempre ouviu que devia ser modelo por causa da altura - ela tem 1,79m - e chegou a participar de alguns concursos de beleza. Ao longo dos anos, porém, deixou de acreditar nesse potencial. "Não me achava bonita o suficiente para que o meu rosto fosse fotografado", afirma. Optou, então, pela faculdade de Ciências Contábeis, na hora de escolher uma formação, e começou a trabalhar na parte administrativa de uma imobiliária.
"Fui entrar na Internet só em 2017, quando já tinha me curado dos problemas de autoestima, e tudo aconteceu meio sem querer", diz. Os primeiros vídeos foram gravados na casa de sua família, no quarto que dividia com o irmão, Gabriel, 21 anos. "Mas dava muito trabalho, porque eu precisava desmontar o equipamento todos os dias para puxar a cama dele, que ficava embaixo da minha, na hora dormir. Também havia muito barulho vindo da rua, e eu não tinha liberdade para gravar na hora que quisesse. Foi quando resolvi morar sozinha. E veio a pandemia. Fiquei assim: 'E agora?'"
Com tanta gente em casa buscando conteúdos divertidos, o período de isolamento lhe trouxe um boom no número de seguidores. Sua fama disparou após viralizar com vídeos apelidados de "saindo de fininho", inicialmente no Tik Tok, mas compartilhado também nas outras redes. Inspirada numa modalidade que vinha fazendo sucesso nos EUA, ela brinca com situações cotidianas, em que se empolga e se decepciona ao mesmo tempo, como "pizza pequena grátis/na compra de uma gigante", "frete grátis/nas compras acima de R$ 1 mil" ou "indo ficar com o boy no primeiro encontro/era geminiano com ascendente em Áries".
O sucesso de Camilla também foi impulsionado por celebridades que, vira e mexe, compartilham os vídeos da jovem em suas próprias contas. Regina Casé é uma delas. Taís Araujo também é fã.
Do tipo que se agarra às oportunidades, a jovem pretende iniciar um curso de atuação em breve, estimulada por todos esses elogios. A carreira, diga-se de passagem, já é administrada por gente grande. Ela integra o quadro da agência Mynd, de Preta Gil e Fátima Pissarra. "Nós a convidamos quando estávamos montando o nosso casting de microinfluenciadores. Na época, ela ainda tinha 150 mil seguidores", lembra Fátima. "Mas logo vimos o seu potencial. Queremos levá-la para outras frentes, como séries e filmes."
Para quem entende do assunto, parte do sucesso de Camilla também se explica pela alternativa que ela representa ao que convencionou-se como blogueira há alguns anos, com toda aquela ostentação de uma vida luxuosa. Não por acaso, um dos hits da moça são os testes feitos com roupas compradas em um site famoso pelos baixos preços. "Quando me perguntam sobre uma peça, não tenho problema em falar que foi baratinha e onde comprei", diz ela.
Futurologista da empresa de pesquisa de comportamento e tendências Box 1824, Joely Nunes afirma que Camilla se destaca por vir com um "não-filtro", em que se comunica de maneira nua e crua, como se estivesse numa conversa com um amigo íntimo. Diretor de conexões da Agência3 e professor da ESPM, no Rio, Willian Rocha, diz que Camilla se transformou numa referência e numa voz para muitas mulheres.
Acertar no tom tem a ver com as próprias inquietações da influenciadora, que não gosta muito do título e prefere ser chamada de produtora de conteúdo ("como posso influenciar alguém se ninguém me influencia 100%?", justifica). Ela se cansou de ver as mansões e os closets das blogueiras. "Não é que eu não goste de luxo, mas é muito chato ver uma realidade muito diferente da minha o tempo todo", afirma. "Lá no início, eu usava um colchão que a minha mãe ia jogar fora para pendurar um pano e montar um fundo para as gravações. Teve um dia em que tudo isso caiu, e apareceu a bagunça atrás. Nem liguei."
Ser "de verdade" sempre foi a sua. Lá em 2017, quando começou a postar fotos em seu Instagram, Camilla logo recebeu comentários positivos sobre o seu cabelo estilo black power. "Muita gente pedia dicas, e resolvi fazer um vídeo com essas informações para o YouTube. A ideia era mandar o link por mensagem sempre que perguntassem sobre o assunto. Mas, em dois dias, meu canal tinha mil inscritos. Levei um susto, porque não conhecia tanta gente assim."
Por ora, Camilla também segue incólume ao famigerado "cancelamento", como é chamado o limbo ao qual é colocado quem pisa na bola aos olhos do público. "Não tenho medo de ser cancelada, mas de errar em algo muito óbvio. Antes de postar qualquer coisa, precisamos pensar três vezes, para ver se não estamos ofendendo alguém." Palavras de uma mente fervilhante. Tanta disciplina soa prudente diante do número de marcas que pululam em parcerias pelo seu feed. "Está rica?", pergunta o repórter. "Ainda não. Isso vai ser só quando eu puder falar assim: 'Já posso me aposentar, que até os 80 (anos) está garantido e ainda vai ter para os meus filhos'."