Talvez você conheça alguém que enche a bolsa de remédios, sempre está tomando algum comprimido, reclama de sintomas de doenças que não têm e troca de médico como troca de roupa. Em níveis exagerados, tais comportamentos se enquadram como hipocondria, uma condição psíquica que acomete mais de 150 mil pessoas por ano no Brasil, de acordo com o Hospital Albert Einstein. Psicólogos e psiquiatras alertam: esse número pode ter sido maior em 2020.
"Por causa da pandemia, muita gente que não tinha traços claros de hipocondria passou a ter, e quem já era hipocondríaco ficou mais", observa Rogério Panizzutti, médico e professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo a psicanalista Andréa Ladislau, há pacientes que, apesar de não terem testado positivo para a Covid-19, acreditam o tempo todo que foram infectados pelo vírus Sars-Cov-2, chegando a fazer um exame atrás do outro para se certificar de que não está doente. "A pandemia piorou muito os quadros de hipocondria, que passaram a girar em torno da Covid-19."
Ela explica que o hipocondríaco amplifica as alterações fisiológicas de seu corpo, entendendo-as como sintomas de doenças graves. A razão está nos traços psíquicos da mente ansiosa. Fatores como baixa autoestima e problemas de socialização levam o hipocondríaco a dirigir sua mente para as alterações fisiológicas do corpo.
Panizzutti lembra que a hipocondria é uma das várias manifestações da ansiedade e pode se expressar não só por uma preocupação exacerbada com o próprio organismo, mas também com a saúde de outra pessoa. E que a necessidade de tratamento surge quando ela começa a atrapalhar a rotina, impedindo a pessoa de se reunir socialmente, expondo-a a uma carga nociva de medicação ou submetendo-a a uma quantidade exorbitante (e desnecessária) de exames.