09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Saúde mental ou física?

Simone Bambini
| Tempo de leitura: 2 min

Temos a ideia equivocada de que corpo e mente são instâncias distintas, nas quais o corpo é um recipiente que carrega um conteúdo e que obedece ao comando da mente. Estudos da neurobiologia rompem com esse pensamento dualista e hegemônico.

Para se criar um sentimento, é necessário se emocionar. E para se emocionar, é preciso ter corpo para vivenciar essa percepção que resultará em uma memória. A perspectiva de que pensamento, sentimento e emoções são corporais rompe com os paradigmas que asseguram que a capacidade de sentir e se emocionar são extrassensoriais.

Nosso corpo é composto por uma química de hormônios e substâncias que nos regulam para sobreviver, a busca da homeostase. A sobrevivência está atrelada a essa troca de informações advindas do próprio corpo (história, genética, traumas) e do ambiente (biológicas, culturais, sociais), no qual o corpo troca informações em tempo real o tempo todo, pois o corpo é mídia de si mesmo, de acordo com a teoria do corpomídia. Nosso corpo e o meio mudam constantemente e precisamos invariavelmente nos adaptar.

O simples fato de articular palavras na boca de uma pessoa modifica a secreção das substâncias que dilatam os vasos do rosto da outra. Do mesmo modo, um insulto pode induzir em quem o ouve uma palidez devida à constrição dos vasos; ou ainda, um desmaio ou lágrimas podem ser provocadas por uma má notícia.

As emoções, como a raiva, medo e angústia, fazem parte do nosso sistema de defesa. Quando acolhemos esses dispositivos regulatórios, criamos uma memória que nos dá suporte para termos compaixão e resiliência não só conosco, mas com os outros também. Novas sinapses são criadas com esse aprendizado e nosso sistema nervoso agradece na sua autorregulação, permitindo comportamentos mais equilibrados.

Para nós humanos, que vivemos essencialmente num mundo de representações, as palavras têm grande poder de esclarecimento. Enxergarmos melhor o que é dito e a conotação afetiva das palavras provoca em nós emoções profundamente sentidas.

O ambiente no qual o corpo troca informações e busca adaptação é falso e ilusório. O sentido imperativo da felicidade a qualquer preço e o fato de existir longevidade nos fazem distanciar, de forma imatura, que a vida também é feita de fracasso, infortúnios, doenças e morte. E nessa busca incessante de felicidade e sucesso o tempo todo, suprimimos as emoções antagônicas a esse imperativo e achamos que temos o controle da situação.

E nessa ignorância, acabamos não desfrutando da potência curadora do corpo e buscamos o entendimento da realidade nos anestesiando com as fake news, nas trocas de imagens, emojis, com o excesso de remédios e o abuso de drogas e álcool.