08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Escondido no silêncio

Saad Zogheib Sobrinho; Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

Abençoada a terra que acolhe este corpo impregnado de bondade e generosidade, encharcado de Eucaristia e revestido de Evangelho. Este corpo assim divinizado se tornará a Eucaristia da terra, do cosmo e da Nova Criação, reeditada pela paixão e morte de Cristo, na continuidade de ser dom que espera em tempos atuais, céus novos. Nestes dias, a Covid-19 levou ao Paraíso o engenheiro bauruense Roberto Hamilton S. Cruz, ex-diretor do Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado. Roberto foi construtor de pontes e sensível aos sinais dos tempos. Em sua história, a profética missão de preparar os caminhos, aplainar as veredas, suscitar amigos, pacificar as intrigas e projetar-se com a consciência histórica, foi sua característica visível.

Mas, sem dúvida, o mais belo e profundo estava na sua interioridade de homem de fé, de solidariedade aos mais necessitados e de indignação diante das desigualdades e contradições.

Sobre ele, testemunha Eduardo Zogheib: "Roberto era muito próximo de todos nós. E o foi da forma mais extraordinária possível com cada um. Sempre bem humorado, não deixava espaço a vulgaridades, aproveitando o tempo, dedicado ao outro, ao social (justiça), à comunidade, à consciência política e espiritual sempre profundamente coerente com o Evangelho, em consonância com a Igreja. Estudioso e militante leigo, era reserva com quem podíamos falar de valores da moral católica. Fascinado pela vida dos santos, dele emergiam preciosidades." Nunca julgava ou emitia juízos precipitados. A bondade inconfundível da pessoa bem-aventurada.

Nos anos 1960, Roberto estudava na Escola Politécnica da USP e, possuindo apurada visão crítica, era militante dos movimentos de Ação Católica. Neste mosaico, chega um "enviado" do céu, Roberto Hamilton. Sereno e pacífico propõe uma novidade, narrada em livro autobiográfico de Saad: "Pouco antes do golpe, Roberto (...) retornava nos finais de semana a Bauru. Convidou alguns jovens para um encontro onde se apresentaria uma nova experiência eclesial." E quem foi agraciado por esta Luz pode dizer no íntimo do coração, em silencio ou em sentida oração, palavras de agradecimento a Roberto.

Roberto fora inspirado, pois aí iniciou a aventura com pessoas e com cristãos de se embater em um carisma que brotava da oração sacerdotal de Jesus "Pai que todos sejam um como Eu e Tu somos Um" (Jo, 17:21). Nascia, em Bauru o Movimento dos Focolares.

Roberto tinha enxergado mais longe. Sabia apontar para o essencial para a raiz evangélica da novidade de um carisma que se confirmava no tempo. Vislumbrava ter-se homens novos e estruturas novas.

Roberto tinha consciência social profunda. Batalhou por um mundo honesto, com estruturas equalizadas e sadias, sem opulência e corrupção, sem periferias de pobreza e de miséria. Roberto, no meio das pessoas, amargando esperanças e contradições, se apaga para fazer resplandecer a Boa Nova do Evangelho que propõe unidade e fraternidade, justiça e liberdade. E, principalmente, severa e honesta conversão de pessoas e instituições. Gratidão a Deus por esse dom que Roberto Hamilton foi para todos nós.