08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O Brasil acabou

Arthur Monteiro Junior - advogado e jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil acabou, definitivamente não existe mais. Talvez fosse melhor que nunca tivesse existido. Depois de anos, décadas, talvez séculos, a luta de um povo para ser um dia feliz perdeu o sentido, a importância, talvez o "timing": a barbárie venceu. Teve um dia, recordarão os mais velhos, que parecia que o grande momento estava ali, na esquina, à nossa espera para se realizar. O Brasil, "o país do futuro", como o denominou Stephan Zweig em um de seus livros (que para cá veio fugindo do nazismo e, estranha ironia, não conseguindo esperar pelo dia tão almejado, em depressão, acabou suicidando-se), foi definitivamente derrotado.

Nunca mais um acorde de chorinho, uma alegre roda de samba, uma bela canção de Chico (Buarque, César ou Science), um poema de Thiago de Mello ou Manoel de Barros, uma pintura de Tarsila ou Volpi, a voz de Betânia ou Elis, a dança olímpica de Daiane ou clássica de Ana Botafogo, a ginga de Garrincha ou ainda o calcanhar divino de Sócrates. Nunca mais.

Nunca mais a imagem delicada, quase santa, de um Paulo Freire ou de um Dom Helder, a nos iluminar. Nunca mais nossos punhos cerrados, nossa presença massiva nas ruas, nossos gritos empolgados a assustar os poderosos de plantão. Não, nunca mais! Tudo será sepultado junto com a nossa alegria, sob os escombros do país.

De que valeu as marcas que muitos de nós adquirimos enfrentando a polícia? Pra que serviu a morte de Marighella, Herzog, Iara, entre tantos outros? De que adiantou os sofrimentos no pau de arara, na cadeira do dragão, no escuro das masmorras de brasileiros e brasileiras?

Talvez um dia, os antropólogos, escavando por estas terras, irão descobrir uma civilização que cultivava a alegria e por ela lutava, muitas vezes de forma vã, e saberão que, assim como os Incas ou os Maias, também existiram os brasileiros.

Mas como nós permitimos que fossemos destruídos? Quem poderá responder? O que se tem conhecimento é que as hordas foram chegando, não se sabe bem de onde, muitos deles, certamente, já estavam ao nosso lado, sem que os tenhamos percebido, e numa marcha frenética avançaram sobre nossos jardins, mataram nossos cachorros, invadiram nossas casas, como na poesia; e destruíram nossos sonhos, nossas histórias, nossas vidas; tomaram nossos símbolos; apropriaram de nosso hino, de nossa bandeira e definitivamente, o verde e o amarelo passaram a representar a barbárie.

"Não passarão!", ainda gritávamos, mal percebendo que nossos corpos era pisoteados, nossas mãos arrancadas e nossos gritos, cada vez mais diminutos, em pouco tempo desapareceram.

E agora estamos todos mortos, todos. Mas os cemitérios estão lotados, não há mais lugar para nenhum de nossos corpos putrefatos e, como zumbis eternos, vagamos pelos mais remotos rincões do que um dia foi chamado de Brasil, sob o olhar indiferente dos bárbaros que, extasiados, repetem sem cessar, diante do demo, "mito", "mito".

E o tinhoso, em desalinho, com uma faixa presidencial no peito, sorriso sardônico, vocifera palavras incompreensíveis, intercaladas com interjeições como "táoquei?" e "e daí?", enquanto da sua boca exala um cheiro fétido de morte e enxofre.