08 de julho de 2026
Cultura

Carnaval: clima é de saudade e expectativa

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Quem vive o Carnaval de perto, há anos, nas escolas de samba, percebe um início de ano completamente distinto dos demais. É um momento histórico, silencioso e triste. Com o Carnaval cancelado em todos os cantos do Brasil, inclusive em Bauru, por conta da pandemia da Covid-19, o clima de folia tem gosto de saudade da correria e energia rotineiras desta época do ano.

Na casa de Gisele Baroni, presidente da Tradição da Zona Leste, muitas das fantasias estão guardadas esperando pelo novo enredo da escola. "O pessoal está triste pela falta do Carnaval neste ano. Está tudo muito diferente de todos os anos, temos medo que isso aconteça mais um vez", afirma Gisele Baroni, que vive o Carnaval há 35 anos. Por lá, em outros anos, era momento de correria.

"A gente não sabia como iria ser o Carnaval, mas tínhamos esperança. Então, fomos trabalhando aos poucos enquanto o ano passou, nos reunindo com toda precaução e em poucas pessoas. Para o próximo ano, já temos o enredo pronto, o organograma da escola e estávamos terminando de elaborar o samba-enredo", afirma a presidente da escola, que superou a Covid-19, após 12 dias internada. "Foram os piores dias da minha vida. O principal é a gente se livrar desta doença logo."

Agora, a expectativa é de que o Carnaval de 2022 possa acontecer em segurança e com muita alegria. "O pessoal está ansioso. É estranho ficar sem essa festa que a gente tanto ama", diz.

SEM CLIMA

No depósito da Mocidade Unida da Vila Falcão, as máquinas de costura seguem silenciosas e sacolas guardam fantasias de fevereiro passado. O "Falcão Guerreiro", que tomou a avenida em 2020, permanece no local, ainda sem um novo destino. "Não tem clima de Carnaval, na verdade", afirma o novo presidente da agremiação, Carlos Alberto Tonelli.

Assim como nas demais escolas, nesta época do ano, o local estaria repleto de pessoas na finalização de fantasias e adereços, enquanto o trabalho com carros alegóricos ocorreria com antecedência. "São muitas pessoas que trabalham com o Carnaval, como costureiras, serralheiros, o pessoal do barracão e até os que vendem alimentos no sambódromo já sentem também a diferença neste ano", afirma Tonelli, que espera que o Carnaval seja realizado em 2022.

"Não existe Carnaval fora de época. Esperamos que tudo dê certo para 2022. Teremos menos tempos para poder fazer nossos eventos e para conseguirmos levantar fundos para o desfile, mas estamos ansiosos pra poder voltar", diz o presidente, que já contava com enredo pensado para a festa.

NOVOS TEMAS

Em 43 anos de história, a Acadêmicos da Cartola fechou pela primeira vez o barracão. Em outros fevereiros, este momento era de expectativa e trabalho pesado. "Era a hora que a emoção começava a subir, a adrenalina aumentava. Se Deus quiser, vamos passar por isso e vamos conseguir levar a energia e alegria para o povo", comenta Paulo Madureira, presidente da agremiação campeã do último Carnaval com a "Vida Cigana".

Em relação aos temas que podem ser explorados na avenida, a escola já tinha algumas ideias de dois a três enredos possíveis. "Tudo que estava em pauta já não foi discutido mais depois da pandemia. Eu acho que agora, teremos que voltar com um enredo mais alegre, com mais valor a vida. Penso que os tradicionais indígenas, egípcios, afros, perdem um pouco de força. Esse novo enredo tem que trazer alegria e felicidade", salienta.

ESPERANÇA NA IMUNIZAÇÃO

Na escola de samba do Geisel, a Coroa Imperial da Grande Cidade, o clima é de tristeza e incertezas, de acordo com o carnavalesco Gilson Jacintho. "Sem a vacina, não se sabe quando tudo voltará ao normal. Quando teremos nossa festa, de fato, de volta", destaca o carnavalesco.

A saudade é da ansiedade e do coração acelerado, da bateria afinada para entrar no Sambódromo e os foliões empenhados em receber suas fantasias. "Nosso enredo já estava sendo pesquisado e desenvolvido. Agora, ele fica esperando e, possivelmente, é o que usaremos no próximo carnaval, seja ele em 2022 ou 2023", conta Gilson.

A preocupação da escola, no momento, é com a imunização eficaz para que esse processo se agilize. "Essa vacinação nos traz a esperança de retomarmos nossos trabalhos. Lembrando também de todos os profissionais envolvidos na festa, que precisam da renda do Carnaval para suas famílias", finaliza.