08 de julho de 2026
Economia & Negócios

Comércio mundial: pela 1ª vez, uma mulher no comando

FolhaPress
| Tempo de leitura: 4 min

A pior crise dos 25 anos de história da Organização Mundial do Comércio (OMC) é só mais uma na vida da economista Ngozi Okonjo-Iweala, 66 anos, escolhida como a nova diretora-geral da entidade na última segunda-feira (15). Nascida na Nigéria quando o país ainda era colônia britânica, precisou fugir com a família na guerra civil de Biafra, passou fome, dormiu no chão. Décadas depois, foi ameaçada de morte ao combater negócios ilegais de combustível e teve que negociar com sequestradores a libertação de sua mãe, octogenária.

No capítulo profissional, chegou aos EUA aos 18 anos para se graduar e doutorar em duas das mais disputadas universidades do mundo, Harvard e MIT. Foi três vezes ministra da Nigéria, maior e mais populosa nação negra do planeta, e descascou abacaxis como o da dívida externa bilionária - abatida em negociação com o Clube de Paris.

A escolha como nova diretora-geral da OMC também passou por solavancos. A nigeriana deixou seis candidatos para trás e chegou à fase final da disputa, mas foi barrada pela gestão Donald Trump, em outubro. A seleção para a nova chefia ficou parada até o dia 5, quando Joe Biden, o novo ocupante da Casa Branca, deu o sinal verde.

Quando ocupar seu escritório em Genebra, Okonjo-Iewala completará sua quarta vez como "a primeira a" superar algum marco importante. As três anteriores foram como primeira mulher a ocupar os ministérios nigerianos das Finanças (2003-2006; 2011-2015) e das Relações Exteriores (2006) e como primeira negra a concorrer à presidência do Banco Mundial, em 2012. Na OMC, a dose é tripla: será a primeira mulher, a primeira africana e a primeira negra.

Okonjo-Iweala é descrita por economistas e operadores que já trabalharam a seu lado como alguém "que enche a sala quando entra", e isso não se deve a seus coloridos vestidos de Ankara (tecidos africanos estampados com o uso de cera) ou ao estilo próprio de arrumar os turbantes de mesmo padrão. Ela tem liderança, luz própria e até certa sedução, disse um ex-colega, que preferiu anonimato. 

No Banco Mundial, a especialista em economia do desenvolvimento começou como estagiária e chegou a diretora administrativa, o segundo posto mais importante na hierarquia. Cotada para substituir Robert Zoellick como presidente, perdeu a vaga para Jim Yong Kim, mas deixou Washington com credenciais para rebater as críticas de que não tem experiência em comércio.

Na defesa de sua candidatura para o cargo atual, Okonjo-Iewala ressaltou que a organização precisa de "soluções políticas e profunda experiência em organizações multilaterais" - que ela possui. Nunca ter trabalhado na OMC pode até ser uma vantagem, na opinião de alguém que já esteve lá dentro, a canadense Debra Steger, primeira diretora do Conselho de Apelação (1995-2001): "Ela vai trazer ar fresco para uma OMC que se encontra numa encruzilhada".

Na entidade, as decisões são tomadas por consenso, e a direção-geral tem que ser hábil para colocar os membros ao redor da mesa, engajá-los e trabalhar com eles para obter acordos, afirma Gonzalez, que é analista sênior da PIIE (Instituto Peterson de Economia Internacional). "O que é preciso é energia, entusiasmo, é ver oportunidades onde há desafios. E essa sou eu", disse Okonjo-Iewala em julho a uma publicação africana.

O discurso não revela modéstia, mas tem respaldo em outras fontes: ela já esteve por cinco anos consecutivos entre as 100 mulheres mais poderosas do mundo na lista da Forbes, foi apontada em 2014 como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela Time e, em 2015, nomeada uma das 50 maiores líderes mundiais pela Fortune. Em 2020, foi escolhida pela Forbes "pessoa africana do ano", por sua chefia na Gavi, sigla em inglês para aliança global pela vacinação.

Seu pai, Chukwuka Okonjo, era o "eze" (rei) da família Obahai e oficial da revolta da etnia ibo pela separação de Biafra. Com o avanço das tropas federais sob comando da etnia rival hauçá, a família de sete filhos teve que abandonar sua casa e fugir da cidade natal, Ogwashi-Ukwu.

Aos 15 anos, andou dez quilômetros carregando nas costas a irmã de 3 anos, com malária e febre, até o médico que salvaria sua vida. Sua infância de escolas internacionais, aulas de balé e piano tinha ficado definitivamente para trás.

O conflito em Biafra deixou de 500 mil a 2 milhões de civis mortos, grande parte por falta de comida. As experiências de guerra, contou a economista, lhe deram resistência.