09 de julho de 2026
Ser

Saudade: novo significado na pandemia

Ludmilla Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Enquanto em todo o País são registrados casos de aglomerações e festas, milhares de famílias seguem firme no isolamento desde março do ano passado, a fim de evitar o contágio pelo novo coronavírus. E vivem com um sentimento que aperta o coração: a saudade. E a palavra, que existe em poucos idiomas, ganhou novo significado com a pandemia.

A jornalista Juliana Victorino está há quase dois anos sem ver a filha, que mora na Nova Zelândia, país no sudoeste do Oceano Pacífico. A estudante Constanza Victorino Torres, 19 anos, viajou em 29 março de 2019 para fazer intercâmbio de três meses e morar na casa dos tios, que residem no país há três anos. Mas, gostou tanto do país, que pediu a extensão do visto para ficar até abril de 2020.

"Mas quando começou a pandemia, a primeira-ministra do país, Jacinda Ardern, fechou todas as fronteiras [em 23 de março de 2020]. Ela já estava com as passagens compradas para retornar dia 22 de abril de 2020. A pandemia ganhou força e o Consulado Brasileiro, que também cuida da Austrália, estava analisando se ela poderia ficar ou não. Decidimos que ela ficaria lá, pois a volta só foi permitida em um voo de ajuda humanitária, que poderia ser arriscado já que ela faria escala em vários países e poderia ficar parada em algum dos destinos sozinha", contou Juliana.

Com isto, o visto da estudante foi renovado e ela poderia ficar até outubro de 2020. "Como o país também estava fazendo um bom controle da pandemia, escolhemos que ela ficasse lá. Em outubro de 2020 venceu os seis meses e a Nova Zelância renovou [o visto] para ela por mais seis meses e vence em abril de 2021. Não sei se ela vai conseguir voltar, se eles vão reabrir a fronteira ou se ela vai poder voltar em um voo seguro, porque até hoje são voos humanitários com paradas incertas", lamenta a mãe da estudante, que apesar da saudade, tem feito de tudo para amenizar a falta da filha.

Ela conta com a tecnologia e outras maneiras de encurtar a distância e a saudade. "Temos algumas formas de não perder a conexão entre nós duas: lemos os mesmos livros, e comentamos, contamos fofocas do bairro ou da família, fazemos as videochamadas com a bisavó e avó que estão morrendo de saudades, com as irmãs dela, a cachorrinha e até outro cão que chegou depois que ela viajou", conta Juliana.

Juliana conta que a saudade é imensa, mas que o contato constante é o que a faz seguir adiante. "Ficamos nessa de mostrar o dia a dia, o que a gente está comendo, essas coisas que fazem com que a gente continue mantendo laços e se reconheça no dia a dia e quando ela voltar não seja tão estranho. Então um visual novo de uma irmã, um cabelo novo que a gente faz, tudo é motivo pra gente dar risada, é assim que a gente tenta sobreviver a saudade, ao aperto no coração, muitas vezes o choro [vem], me emociono até agora ao falar, e fico com a esperança de que ela esteja vivendo um período maravilhoso na vida dela e com certeza ela está mais segura que a gente aqui no Brasil", diz Juliana com voz embargada de choro.

NETA E AVÓ CONECTADAS

Já a aposentada Solange Azevedo Medeiros de Souza, que mora no Rio, não vê a filha e a neta que moram em São Paulo há quase ano. A última vez da Solange em São Paulo foi no aniversário de cinco anos da neta Melissa, em fevereiro do ano passado. Ela segue à risca o alerta dos especialistas, que recomendam que as famílias evitem viagens e comemorações com pessoas de outras residências.

Assim como Juliana, ela conta com as tecnologias de comunicação para manter o vínculo com a família que está na capital paulista. A gente tem se falado por áudio e vídeo. E ainda tem as redes sociais para acompanhar, vejo as fotos que minha filha publica, é uma forma de matar um pouco essa saudade. Minha filha envia também uns vídeos da Melissa e procuro me fazer presente enviando uns vídeos de princesa que ela gosta para poder se distrair porque a criança sem poder ir para a escola também cansa. Por isso ela me chama de Vó DVD!", se diverte Solange.

"O momento pede esse sacrifício, de ficar longe das pessoas que a gente ama, visando o bem de todos", reflete a aposentada. Apesar disso, Solange, que foi professora, lamenta perder momentos importantes do desenvolvimento da neta. 

Agora, Solange espera o momento de poder tomar a vacina para encontrar novamente com a neta e outros familiares. "Daqui pra frente vem a vacina, que é a única coisa que pode nos proteger contra esse vírus e voltar para vida normal, e ficar mais perto um do outro."

A tecnologia ajuda, diz Solange, mas ela espera logo é acabar com a saudade com o abraço. "Temos toda a forma de se comunicar pela tecnologia, mas nada substitui o contato próximo, o olho no olho, o abraço, pode até ajudar, mas não substitui a emoção de estar juntos pessoalmente!".