10 de julho de 2026
Cultura

Caso Karol Conká diz menos sobre ela e mais sobre o hoje

Matina Lourenço
| Tempo de leitura: 2 min

A 21ª edição do Big Brother Brasil reuniu, até agora, um combo de acontecimentos históricos na televisão brasileira. Nesta segunda edição do reality, já foram dois recordes de eliminação consecutivos, o primeiro beijo gay, o maior número de participantes negros. E, é claro, Karol Conká.

A rapper curitibana de 34 anos fez seu nome como a maior vilã da história do programa sem que tenha passado mais de um mês dentro dele. O rótulo rendeu a ela contratos cancelados, ameaças e impressionantes 99,17% de votos pela sua eliminação, ocorrida nesta semana.

As atitudes da cantora dentro do BBB, no entanto, podem dizer mais sobre as relações sociais do mundo hoje do que sobre a sua personalidade. Isso porque é cada vez mais comum projetarmos, em nós ou nos outros, heróis sobre-humanos que, em pouco tempo, acabam devorados pelas próprias ilusões de quem os idealizou. É o que diz o psicanalista e escritor Christian Dunker, vencedor do prêmio literário Jabuti em 2012, na categoria de psicologia e psicanálise.

"Ela entrou no programa a partir de uma posição consolidada de alguém que pratica o cancelamento como um exercício político de contrapoder, o que é comum em grupos historicamente cancelados, como as vozes negras e femininas", diz ele, que chama a ação de um ajuste de contas. "Até nas músicas [da cantora] percebemos isso. O próprio ato de tombar é uma disputa por lugares simbólicos", afirma ele em referência a letra de "Tombei", o maior hit da artista, lançado em 2015.

Essa prática mais genérica do cancelamento se revela, contudo, uma tentativa de reproduzir opressões quando vista de perto, diz o especialista. "Isso nos permite ver como o BBB mostra a nossa cultura da exclusão, da segregação", diz ele.

"A gente ri assistindo, mas rimos de uma coisa profundamente trágica, que está acontecendo na lógica do trabalho, do reconhecimento e do desejo. A negação do outro, a lacração e o cancelamento são quem produzem esse silenciamento."