09 de julho de 2026
Cultura

Dia da Mulher inspira autorretratos

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Elas saíram detrás das câmeras e foram para frente delas no intuito de revelar como se sentem diante das pressões diárias, em meio a uma pandemia mundial. Inspiradas pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, sete fotógrafas do coletivo "I Hate Flash" transformaram em imagens, sentimentos que, muitas vezes, ficam trancados. Na série "Autorretratos delas", as profissionais produziram imagens trazendo temas importantes sobre o 'ser mulher' na sociedade (confira a série de fotos na íntegra no final).

Artista, fotógrafa, operadora de câmera e diretora de fotografia há onze anos, Laís Aranha começou na aventura de criar imagens como forma de navegar no mundo. Em seu autorretrato, ela viu uma oportunidade de se vincular com ela mesmo. "Pensei no dilema da autoimagem, de como quero ser vista, como pensamos que nos veem e como queremos que nos vejam. Gosto de trabalhar isso para me colocar no lugar daqueles que fotografo e é doido perceber quanta vulnerabilidade existe do outro lado da câmera", afirma.

Para essa foto, ela conta que deixou uma lente analógica antiga na frente de sua câmera digital, ajustou o foco e se colocou ali na frente das duas lentes. "Era uma noite de estudos durante a pandemia".

ACEITAÇÃO

A fotógrafa Julia Assis usou o ensaio fotográfico como ferramenta para ajudar as pessoas a se verem com novos olhos, a se permitirem e se aceitarem mais. "Gosto de trabalhar, principalmente, com aceitação do corpo então o nu e o autorretrato sempre foi parte do meu processo artístico. Esse foi especialmente difícil porque testei positivo para a Covid e foi a primeira vez que fiquei totalmente confinada no quarto. Este autorretrato veio como uma maneira de sair um pouco e testar um processo de edição novo, com dupla exposição", relata a profissional.

Quem também falou sobre aceitação foi a fotógrafa e artista, Helena Yoshioka. "Esse autorretrato surgiu durante um movimento de aceitação de memórias e lembranças antigas, em que entrei em um movimento obsessivo em relação ao passado na esperança de recuperar os fragmentos e histórias que tinham me passado despercebidos", conta.

A VIDA

A fotojornalista Anette Alencar, que também faz registro de performances artísticas, trouxe para o seu autorretrato a história de sua vida desde e o nomeou de 'Onde enterrar palavras que morrem na ponta da língua'. "Foi um processo de investigação e costura sobre a minha história e da minha mãe, que morreu no dia que nasci. Ao entrar na banheira fiz um paralelo com a relação de enterrar algo, mas na água, que traz fluidez para tudo", diz.

Outra que optou por momentos da vida, como o fim da menstruação, foi a produtora cultural e do setor audiovisual Tatiana Félix que usa câmeras para expressar seus sentimentos e visão do mundo. "Uma vez por mês tem lua cheia no céu e lua cheia aqui dentro. Uma vez por mês o útero descama e o corpo sente fora. Durante essa fase lunar muita coisa acontece. Os seios doem, o humor muda e o choro vem. Processo que se repete, mas nunca é o mesmo. O meu corpo fala, estou aprendendo a ouvir", declara.

'COISIFICAÇÃO'

A diretora de fotografia, Anne Karr, apesar de não ser muito adepta aos autorretratos, colocou-se em frente à câmera em meio ao papel alumínio, muito utilizado na cozinha, local onde por muito tempo a sociedade machista designou ser o lugar da mulher. "Na minha foto entra como objeto de quase coisificação, tampando minha boca, minha fala, me fazendo quase que uma só com a parede da minha casa. Porém, os olhos continuam fixos e atentos, quase desafiadores", destaca a profissional.

Já Clarissa Ribeiro, diretora, montadora e artista visual, trouxe a "coisificação" em relação às redes sociais, em forma de selfie. "Minha intenção nesse experimento foi tensionar os limites entre realidade e virtualidade, alargar o que sou eu, o que é minha autoimagem e o que eu quero que as pessoas acessem de mim", comenta.

Segundo Clarissa, a iluminação magenta da foto é proposital para trazer uma certa aura de misticismo e magia. "Para lembrar-nos sempre de prestar atenção no nosso lado espiritual e não sucumbir às perversidades dos padrões de beleza hegemônicos que o capitalismo impõe sobre nossos corpos e desejos".

SERVIÇO

O ensaio "Autorretrato delas" das fotógrafas do coletivo "I Hate Flash" ficará disponível no site http://www.ihateflash.net e nas redes sociais (@ihateflash). Todas as fotos da série podem ser conferidas no http://www.jcnet.com.br.