08 de julho de 2026
Articulistas

O silêncio

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 2 min

Estamos em março de 2021, mês que completa um ano que convivemos com o coronavírus. Dentre muitas experiências: de perdas, luto, privações, dores mentais, o que se extrai destes tempos difíceis, pode enriquecer nossas vidas se conseguirmos olhar para os limites efetivos de nossas inconstâncias diante deste efêmero momento.

Continuamos nos adequando à rotina e horários adaptados. Estamos vivos, enfrentando as dificuldades que recaíram sobre nós. De fato, desde que nascemos estamos todos à prova da nossa própria existência, e quando algo modifica os mecanismos a que estávamos habituados, temos que deixar vir à tona outras engrenagens, outras formas de viver e sobreviver diante das dificuldades que vão aparecendo: o vírus se torna o dono da vida, e não apenas o dono da morte. Em todos os momentos, nosso corpo, mente e espírito clamam por atenção e cuidados e, neste sentido, não olhar para nossos medos e angústias sobrecarregam nossa existência, fazendo-nos em algum momento ter que conviver com sintomas que resultam de um processo de defesa contra nossas angústias.

Freud, ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, propõe uma nova ordem para nossa existência: "O ego não é rei em sua própria casa!" Assim, ele nos avisa que somos inconformados com nossas limitações e principalmente com a finitude da vida. É muito fácil nos reconhecermos nesta condição, basta olhar para nós, e para o momento que estamos vivendo.

Assim, estabelecer uma relação de silêncio que nos permite olhar para dentro, pode nos conectar aos nossos medos e angústias na busca do que deveria ser fundamental para atravessarmos este momento. Pode parecer contraditório, mas silenciar a mente pode nos conectar à muitas respostas. A resposta que vem de dentro, do apelo interno para conseguirmos sobreviver na incerteza deste momento desconhecido.

O silêncio em seus múltiplos sentidos pode se fazer vida ou morte, alegria ou tristeza, parada ou isolamento, mas será infinitamente o lugar do mistério da palavra que não se fez disfarce e que, por total falta de tradução, permaneceu ausente, aberto à infinitos sentidos. Por isto talvez este seja um momento propício para abrir esta busca de sentido que mora dentro de nós.

Como diz Guimarães Rosa: "A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer de nós é coragem!" Engana-se quem não absorve o momento e continua vivendo sua vida como se não houvesse amanhã.

Em tempo: este texto foi escrito ao som da música "Águas de Março", de Tom Jobim.

A autora é psicanalista, responsável pelas páginas: Cinema e Arte no Divã, Auguri Humanamente. Formada pela USC, especialista pela USP- Depto. de Psicologia.