08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

As crianças nos imitam

Matheus Terra - Pederneirense e estudante de Jornalismo pela Unesp - Bauru.
| Tempo de leitura: 3 min

Durante uma conversação entre crianças - três, para ser mais exato - espantou-me o fato de que todas elas, sem exceção, estavam atentamente olhando para a tela de seus celulares, como se as palavras proferidas pelas suas bocas fossem meramente ilustrativas e servisse apenas de pano de fundo de uma cena cotidiana qualquer. Discutiam sobre a rotina escolar e uma delas - a mais velha - sem prestarem muita atenção, opinava concisamente sobre os métodos pedagógicos aplicados em sala de aula. Parecia, contudo, achar graça em pintar desenhos mesmo sabendo já ler, o que achei muito curioso.

Parado, apenas observando atentamente os gestos e palavras, confundi a minha vista com meus pensamentos, que foram, aliás, para uma muito longe, quando escutar música no mp3 ainda era uma novidade e a eficiência das vacinas eram discutidas apenas por profissionais da área médica. Grande época.

Acontece que, mesmo nunca tendo sido um estudante muito dedicado, sobretudo no ensino fundamental e sobre os quais os fatores desse desinteresse ainda eram desconhecidos, podia imaginar quais seriam as grandes pesquisas que poderíamos realizar com a tecnologia em ascensão da época, o famoso computador, que aliás só era conhecido por nós por serem vistos na TV e muito raramente nos laboratórios de informática da escola. Nesta época ainda não tinha idade para frequentar as falidas lan-houses, que viria a tornar-se parte de meu cotidiano alguns anos mais tarde.

No entanto, com o passar dos anos, o pequeno aumento da renda de algumas famílias permitiu que esta máquina pudesse fazer parte da casa. A mais alta tecnologia antes dos celulares smartphones, que nada mais é do que um computador super avançado de bolso.

Como faz parte do equilíbrio presente na natureza - como as leis que regem a interação atômica e buscam a estabilidade perfeita quando trocam, cedem ou compartilham elétrons possibilitando a formação de novas moléculas - e das relações sociais humanas, tão inerentes as relações culturais, os computadores com internet possibilitaram o acesso aos mais diversos tipos de conhecimento da física, astrologia, matemática, biologia, curiosidades sobre o corpo humano e sobre a Lua, mas também, como não poderia deixar de ser, possibilitaram o tempo ocioso, o estarrecimento e o uso ignorante de uma ferramenta impensável há um século atrás.

É claro que a leitura é importante e hoje em dia muito mais acessível devido aos meios digitais hoje facilmente acessados, mas as crianças repetem os hábitos dos pais, dos tios e daqueles que os cercam. Se os veem sempre com celulares nas mãos e nunca com livros, é estupidez esperar que elas tenham um comportamento diferente.

Antes de ir embora, uma delas comentou que, durante a aula, tomou bronca da professora mesmo que quem estivesse conversando era sua colega, e não ela. - Você foi o bode expiatório dessa situação, comentei, rindo. Sem entender, me perguntou o que era isso, e logo respondi que se trata de alguém que sofre as consequências de algo que não é de sua responsabilidade. Abaixou a cabeça e, mesmo sem entender, continuou alheio ao mundo a sua volta com o rosto inerte e fixo na tela de seu smartphone.