"Escuridão não se combate... se ilumina". No início do século passado, cientes que o conceito do Pensador não era físico, alguns iluminados lutavam para trazer eletricidade para Bauru. Aqui, existiam alguns lampiões a querosene, só acesos em noite de luar. Em 16/março/1911, às 18h40, na praça municipal, atual Rui Barbosa, acordes da banda, os 21 tiros de morteiro e os fogos de artifício saudaram o acionamento de 12 lâmpadas. Ficavam acessas até a meia-noite. Por ser novidade, os 10.000 moradores tinham medo de conviver com fios elétricos suspensos na cidade e nos 18 km até a Usina de Guaianás.
Em 1º/julho/1911, os engs Antônio Cintra e Joaquim Gomes fundaram a Empresa Eletricidade Bauru, sob a presidência de Raul de Mello (Em 1909, houve Concessão da Câmara). Em 1915, eram 277 lâmpadas. Ainda nessa década, uma enchente destruiu a Usina Guaianás. O "apagão" só encerrou em 1920, com a linha 15 kV, vinda da Usina Lençóis. No ano seguinte, a linha de transmissão 60 kV da Usina Avanhandava chegava a Bauru, originando a primeira subestação na cidade. Em 29/dez/1921, com a extinção da Empresa Bauru, a CPFL assumiu. Havia sido fundada em 16/nov/1912, fruto da fusão de quatro pequenas empresas. A mais antiga era a Força e Luz Botucatu (1905).
Até 1928, eletrodomésticos eram raros. Prevalecia no consumo: cinema, luzes de residências, comércio e ruas. Os consumidores pagavam por lâmpada instaladas (16 ou 32 velas), monitoradas por fusíveis. Diante dessa situação, em 1929 a CPFL instalou em Bauru loja comercial, para a venda de aparelhos elétricos, em 36 meses: geladeira, fogão e ferro de engomar. Passou a instalar medidores. Aí o pioneirismo deixou a sua marca e contribuiu com o desenvolvimento da região. Só a partir de 1934 as fábricas de óleo, máquinas benefícios de café e algodão passaram a usar eletricidade.
Na década de 30, algumas obras favoráveis à população, nos aspectos segurança, meio ambiente, arquitetura urbana e qualidade de vida. Entre elas: 1933, postes com luminárias modernas na Rodrigues Alves e Araújo Leite; 1939, iluminação no Jd Bela Vista. Em 1991, gerenciando a então Regional de Bauru da CPFL (88 localidades), idealizei a montagem do "Centro de Memória" e da "Cápsula do Tempo" (programada para abrir no centenário da CPFL - 2012). O objetivo foi retratar e preservar a história da eletricidade de Bauru e Região e ofertar à comunidade um espaço cultural para informação e pesquisa. A coordenadora do projeto foi Martha Arias, da CPFL, sob a orientação da profa. Terezinha Boteon, da Unesp. Esse legado, documental e material, foi compilado junto aos empregados e aposentados, mídia e historiadores. Em novembro de 91, foram inaugurados, inseridos na programação oficial dos 79 anos da CPFL.
Assim que saí da Regional, o inesperado aconteceu: 1. O "Centro de Memória Regional" foi desativado. Documentos e materiais entulhados. Após, foram transferidos para Campinas. Desconheço como foram catalogados; 2. A "Cápsula do Tempo" foi aberta em 2012. Porém, sem a presenças dos idealizadores. Estava apodrecida. Não foram tomadas as medidas preventivas para preservá-la, como recomendado.
Ao subestimar a capacidade das pessoas que idealizaram e sedimentaram esses pilares culturais, as pessoas responsáveis aplicaram o pensamento de Dan Draper: "Pessoas nos dizem quem elas são, mas nós ignoramos isso, porque queremos que elas sejam quem devem ser".
O autor é executivo aposentado da CPFL. Atuou no Gabinete da Prefeitura de Bauru. Integra a diretoria da Apae. É assessor de Civismo e Cidadania da Governadoria do Lions.