De repente, não mais que de repente, o amor acontece e a vida é inundada de luz. Tudo por conta do acaso, coisa que não se explica, pode ser também pela flecha certeira de Cupido ou, ainda, por sentença escrita pelo destino. Mais ainda, qualquer porquê, a verdade é que felizes são todos os que, magicamente, se veem amando. Às vezes, ao dobrar uma esquina, na fração de segundo, eis o amor à primeira vista. Bobagem, pensar assim. O amor não é coisa que assim aconteça, mas sentimento que se constrói, aprendendo. E como é difícil aprender a amar!
Ninguém gosta mais de espelho do que o narcisista. Esse sentimento faminto de si mesmo, desejo de brilhar sozinho, de apagar o outro, essa vontade feroz de humilhar o vencido com o peito medalhado e a taça na mão. Não chamemos coisa assim tão pequena de amor. Outras vezes, tão arrebatador ele se torna, que a simples ideia de perder a pessoa amada, gera descontrole e insanidade. É quando a insegurança se instala e, com ela, a posse ciumenta, bem possível, então, um corpo esvaído de sangue no chão e mais uma manchete de jornal. Não chamemos de amor o ódio que mata, o amor só se compromete com a vida.
Coisa bem diferente, o amor é um longo e penoso aprendizado. Passaremos a vida inteira tentando aprender a amar e não o conseguiremos. Ninguém pode dizer que sabe amar, apenas que vive para aprender. Primeiro, abrir a alma a tudo que existe e é: as pessoas, as árvores, os insetos, a música, as folhas, a música do vento, os rios, os pássaros... E, sobretudo, amar o outro de outra maneira. Não como objeto de posse, de prazer ou vantagem pontual. Queremos sempre, observa o filósofo André Comte-Sponville, "um interessante objeto para amar", desses que possamos possuir e que nos sacie o desejo. Depois, com imagem expressiva, traduz como é pueril amar assim. O filósofo lembra, então, o bebê que chora quando o peito lhe é retirado, mas se acalma quando devolvido. Quantos não amam assim infantilmente? Amam pela vantagem, pelo prazer ou interesse qualquer. Esse desejo de posse e de prazer é "eros". Bem diferente é o amor que compartilha e acolhe, o amor desinteressado. Os gregos o chamavam de "philia" , os latinos de "caritas" e os franceses de "charité". E o filósofo é conclusivo: "Não se trata de amar a si mesmo como a ninguém, isso é narcisismo. Mas de amar a si como a qualquer um." Entendamos que, assim como o outro, somos qualquer um. Em todos nós, existe igual humanidade.
Repito, passaremos a vida inteira tentando aprender a amar e morreremos aprendendo. Não fosse assim, seriamos perfeitos, santos e nada teríamos a aprender. Dirão muitos que tal pretensão é utópica, jamais conseguiremos amar assim. A imperfeição humana não nos permite sonhar com tal santidade. Hora de nos lembrarmos de Fernando Biri, citado por Eduardo Galeano, em Las palavras andantes: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
Aprende-se a amar quando se caminha não na direção do ego narcisista, mas do amor empático. Cada um de nós amará mais ou menos, dependendo do quanto conseguiu aprender. Assim, a vida ganha sentido: mais humanos seremos e morreremos sabendo que bem mais poderíamos ter amado.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.