Há exatamente um ano, no final de março de 2020, um vírus ainda pouco conhecido começou a transformar a rotina dos brasileiros, assim como a dos quase 380 mil moradores de Bauru. Depois de 12 meses, ele deixou um rastro de quase 500 mortes e um profundo abalo na economia.
No início, mesmo sem casos registrados na cidade, mas já sob a ameaça do que vinha acontecendo em países asiáticos, europeus e até nos Estados Unidos, no dia 20 daquele mês, as atividades consideradas não essenciais foram interrompidas no município e as aulas presenciais, suspensas. Dez dias depois, em 30 de março, os dois primeiros casos eram confirmados.
Passado um ano de medidas para tentar conter o avanço do novo coronavírus, de vazios deixados em famílias que perderam entes queridos, de extinção de empregos e fechamento de empresas, Bauru enfrenta, agora, o cenário mais caótico da crise provocada pela Covid-19.
Em meio a tanto luto, muitas famílias também passaram a conviver com o desemprego e a falência dos seus negócios. Segundo estimativa da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), das cerca de 15 mil empresas existentes na cidade, ao menos 750 - principalmente bares, restaurantes e comércio - fecharam ou estão em processo de fechamento devido à pandemia. Com este impacto, o cálculo é de que o Produto Interno Bruto (PIB) local tenha encolhido 9% em 2020, algo próximo a R$ 1 bilhão.
Mas por qual motivo, depois de tantas vidas perdidas e prejuízos, a pandemia no País segue em descontrole? Para especialistas e autoridades ouvidos pelo JC, a superação definitiva só virá por meio da vacinação, que ainda ocorre em ritmo lento, diante da indisponibilidade de doses para todos.
E, até que a imunização em massa seja possível, o único meio de combater a transmissão, que ainda ocorre em ritmo acelerado, é o distanciamento social, o uso de máscara e a higienização constante das mãos. Porém, mesmo com a instituição da fase emergencial do Plano São Paulo, a mais restritiva de toda a pandemia, o índice de isolamento em Bauru continua baixo.
PRESSÃO
Com a taxa de contato entre as pessoas em níveis distantes do ideal, a circulação de variantes comprovadamente mais transmissíveis e possivelmente mais agressivas, a pressão sobre o sistema de saúde da cidade, já operando acima do limite até mesmo da rede privada, pode não diminuir no curto prazo. Para se ter ideia, até este sábado (20), 497 pessoas tinham morrido em decorrência da Covid-19 no município - é como se um Boeing lotado de moradores da cidade tivesse caído sem deixar qualquer sobrevivente.
E, deste total, 198 - o equivalente a 40% - perderam a batalha nestes primeiros meses de 2021. Até o momento, já são mais de 30,7 mil infectados, uma média de 84 casos registrados por dia desde a primeira confirmação.
Médico infectologista que atua em hospitais da rede pública e privada de Bauru, Taylor Endrigo Toscano Olivo pontua que a situação dramática enfrentada não só pelo município, mas pelo País, é resultado de uma sucessão de erros. Um deles é o fato de os governos federal e estadual não terem se unido para traçar estratégias voltadas aos mesmos objetivos.
"Pelo contrário, eles entraram em embate. Outra coisa é que, ao contrário de outros países, o Brasil não se planejou no sentido de garantir vacinas, que é a única forma de controlar epidemias em toda a história da medicina", pontua.
POLARIZAÇÃO
De acordo com o ex-prefeito Clodoaldo Gazzetta, responsável por gerir a pandemia em Bauru até dezembro, este acirramento da polarização política levou a população a hostilizar prefeitos, incluindo ele, após a adoção de medidas duras para tentar controlar a propagação do vírus. "Isso tornou o processo ainda mais difícil. E este tumulto na opinião pública até hoje tem influenciado o comportamento de uma parcela da população que, além de se rebelar contra os prefeitos, não segue os protocolos sanitários", pontua.
Já a atual prefeita, Suéllen Rosim, avalia que o descontrole decorre do fato de o vírus ter proporções e consequências desconhecidas até hoje, o que dificulta a ação dos gestores. Adepta da busca pelo equilíbrio entre saúde e economia, ela defende que, após 12 meses, mesmo diante da escalada de mortes, é hora de não tratar mais a Covid-19 de forma isolada.
"Precisamos olhar também para outras demandas associadas à pandemia, como comida para as famílias que estão passando fome e tratamento de pessoas acometidas por outras doenças graves. Quando falo da falta de leitos hospitalares, um problema crônico da cidade, e da necessidade de abrir o Hospital das Clínicas, é porque esta pandemia, que chegou de repente, não tem hora para ir embora", completa.