10 de julho de 2026
Articulistas

Bom senso brasileiro agoniza na UTI

Janice Sato
| Tempo de leitura: 2 min

Terapeutas recomendam "respire fundo" em situações de estresse, mas falta ar, oxigênio e respiradores para milhares de brasileiros.

O vírus da Covid-19 não poupa classe social, econômica, etnia, doutrina religiosa, idade nem sexualidade. A pandemia mundial mostra há um ano dois Brasis num só país. "O coronavírus é uma farsa", "essa epidemia simplesmente não existe" e assim chovem comentários ilusórios de uma parcela da população que acredita que as notícias trazem conteúdo de um filme de ficção científica. Dados da Our World in Data, ligada à Universidade de Oxford, revelam que o Brasil é o primeiro país com maior número de mortes diárias no mundo. Essa conquista completa duas semanas, agora em 19 de março de 2021, com 1,8 mil mortes diárias.

Profissionais de saúde de norte a sul do Brasil comentam na imprensa e nas redes sociais a agonia, o cansaço e a fadiga mental e física por causa das longas escalas de plantão, por conta das férias suspensas e pelo incansável dever de tentar salvar vidas. Não há leitos suficientes, nem respiradores, nem equipe assistencial para dar conta de tanta estupidez humana por parte de uma parcela da população que insiste em se aglomerar e fazer festas clandestinas. Falta à ciência desenvolver testes rápidos para a ignorância alheia e vacina contra as variantes do vírus da cegueira social.

O bom senso do brasileiro agoniza nas UTIs. Haja máscara de tripla camada de tecido para deter aerossóis de bestialidade e falta de empatia com o próximo. As Unidades de Terapia Intensiva estão entrando em colapso em 24 estados do Brasil, não só para tratamento da Covid-19, mas também para cuidar de outras enfermidades. A FioCruz alertou que esse cenário retrata o maior colapso sanitário e hospitalar da história e, infelizmente, somos testemunhas dessa tragédia anunciada. Sim, era esperada, porque desde quando se conhece a história de 30 anos do SUS, a população carece de uma assistência rápida, segura, coesa que possa valorizar o "u" do SUS: único. Salvo exceções.

Cada estado brasileiro tenta colocar em prática planos e estratégias de combate à disseminação da doença. Em São Paulo, todo o território convive com a fase emergencial. Pintou-se de vermelho o mapa. Sinal de alerta, de "pare" diante de tantas mortes e da falta de uma política pública inteligente e racional para vacinar mais pessoas, deter o vírus, diminuir a taxa de ocupação dos leitos e de parar de matar a população de fome com auxílios emergenciais pífios. Pensando nesse panorama, a sociedade está com oxigenação zero, mas ainda acredita-se no verde-esperança.

A autora é jornalista.