10 de julho de 2026
Articulistas

A vida mentirosa dos adultos

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Não se assuste com o título. Estamos nos referindo a um livro de Elena Ferrante, editado pela Intrínseca. Já tivemos oportunidade de falar desta autora em artigos anteriores. Ninguém sabe quem é ela. Mulher? Homem? Jovem ou de meia idade? Elena Ferrante faz questão de não se desnudar. Por quê? Sobre o assunto, para o último livro que li, o invisível não existe, não tem valor expositivo. Não chama a atenção. O imperativo da transparência coloca em suspeita tudo que não se submete à visibilidade. E é nisto que está seu poder e sua violência. Já, é precisamente a negatividade do mistério, do véu, da ocultação, que aguilhoa o desejo e intensifica o prazer. ( Byung-Chul Han) Mas, não é sobre a falta de transparência de Ferrante que vamos demorar nossas observações. Já se falou o suficiente sobre isso. Interessa-nos mais, no momento, esta sua última publicação, que faz de Nápoles, mais uma vez, seu pano de fundo, deixa transparecer suas cadências dialetais, realça as relações frágeis entre homens e mulheres e a literatura como forma de autoterapia, embora negue isto. Para ela, a escrita "é girar a faca na ferida, algo que pode causar muita dor."

Nesta obra "A Vida Mentirosa dos Adultos", a autora divide Nápoles em cidade alta e cidade baixa, onde ela mesma, entrevistada por várias personalidades, numa publicação de "O Estado de S. Paulo", afirma ter sido sempre atraída pelos verbos "subir, descer, precipitar, escalar".(A íntegra está em www.estadao. com.br) Acrescenta ter sido a toponímia da cidade que a encorajou a seguir nessa direção. Conclui com o fato de um dos personagens querer apagar, com o endereço da própria casa, suas origens "baixas" e a filha infringir a ordem paterna, arrastando o alto para o baixo e o baixo para o alto, "fazendo de si mesma uma amálgama brusca de elementos antagônicos."

Não é nossa intenção resumir o enredo da trama, mas prendermo-nos ao título do livro que, embora não se refira especificamente a nenhum personagem, acaba englobando a todos, já que o universo dos adultos é construído em cima de falsidades, de mentiras. "A Vida Mentirosa dos Adultos" concentra-se em Giovanna, dos 12 aos 16 anos, uma adolescente que consegue superar os condicionamentos e a rotina num intervalo relativamente breve. Como se refere a própria autora à sua personagem, Giovanna recebeu uma educação laica, hiperdemocrática. Seus pais esperavam que a filha se tornasse uma mulher livre e autônoma, culta e prestigiada, mas um pequeno evento obstruiu o mecanismo predisposto para ela que começou a perceber a si mesma como o fruto estragado de um ambiente mentiroso, falso. Começou, então, a tentar livrar-se, expurgar de si a própria educação recebida.

Nunca nos preocupamos com a falta de transparência da autora. Para Nietzsche, tudo que é profundo ama a máscara; há muitos bens na astúcia. E astúcia não é igual a ardil; é mais eficiente e menos violenta. Fiquemos com essa Elena Ferrante, tal qual se apresenta. O importante é tratar-se de uma das grandes criações da literatura italiana contemporânea. Vale a pena lê-la. Há muita paixão, honestidade, e lealdade em seus escritos. O resto é detalhe.

A autora é pedagoga, jornalista e advogada, professora doutora aposentada da Unesp.