08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Arranjar e desarranjar

Roque Roberto Pires de Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

Os dois vocábulos indicam as fases da sua longa vida. Aliás, só podem falar ou comentar sobre isso quem passou pelas duas fases. Em dezembro de 1975, ele já havia colecionado uma miscelânea de assuntos de Direito que os professores indicavam aos alunos jejunos, as mais variadas obras dos Eminentes de todas as época. Com a formatura ao final do ano, sua biblioteca não era uma simples biblioteca, mas um laboratório especializado onde as cabeças mais privilegiadas na ciência jurídica ocupavam lugar de destaque. Deixou de ser jejuno, neófito e assumiu a função de rábula por uns tempos e depois condecorado com o título de advogado. Para arranjar seu escritório, adquiriu agenda, arquivos de aço, estantes de aço, mesa de mogno com cadeira de espaldar alto, máquina Remington Rand, placa na soleira da porta, mandou imprimir cartões com endereço e telefone, anunciou seus serviços em jornal citadino com atendimentos de segunda a sexta. Seguindo uma tradição, diariamente vestia seu terno, camisa de colarinho com abotoadura, gravata e sapato preto ou marrom para combinar com o terno. Iniciava seu expediente às oito horas e ficava atento ao telefone e campainha da porta na expectativa de clientes. Não trabalhava com assuntos da esfera penal. Em aulas de Direito Penal seus professores diziam que o crime não compensa sequer para o advogado e com isso enveredou por outras searas do Direito em experimental clínica geral.

Faltava algum componente para o escritório. Pensou, pensou e lembrou-se que em todo escritório de advocacia existe uma secretária. Fez anúncio da vaga e no dia seguinte uma fila dava volta no quarteirão. Deixava de atender potenciais clientes para entrevistar e ler os inúmeros currículos. Decidiu contratar uma que exibiu monumental calhamaço contendo o ensino médio , curso de Biblioteconomia pelo sistema EAD, pós e mestrado também pelo mesmo sistema. Após 45 dias de trabalhos em experiência, verificou-se que nada havia aprendido nesses tais cursos. Os livros que se achavam nas estantes, todos catalogados por autor, título e editora foram de tal maneira embaralhados e não se achava mais nada. Foi dispensada e a partir de então ele passou a cuidar sozinho das suas tarefas profissionais.

Comprou um espeto de metal para deixar ali os assuntos pendentes sendo certo que, após alguns meses, o tal espeto ficou lotado, ou seja, tinha mais assuntos pendentes que assuntos solucionados. Infelizmente, o que era para ser organizado foi se transformando em um amontoado de pastas sobre a mesa, papéis manuscritos, anotações avulsas, recados telefônicos e quando algum cliente aparecia perguntando por este ou aquele assunto do processo, instalava-se o caos. Após 45 anos de ininterruptas atividades forenses, dentre outras, resolveu desarranjar o escritório. Ofereceu para alunos recém formados um arsenal de livros. Com desculpas de tudo estar na "internet" poucos manifestaram interesse. Bibliotecas declinaram da oferta. Com tristeza e saudade 90% deles foram enviados para sucata, algo chocante como experiência.