10 de julho de 2026
Cultura

O duro ponto de vista de uma vítima de Alzheimer

Luiz Zanin Oricchio
| Tempo de leitura: 2 min

Anthony (Anthony Hopkins) tem 81 anos e parece um velho teimoso. Hostiliza as cuidadoras providenciadas por sua filha, Anne (Olivia Colman), e parece francamente desagradável. O problema mais urgente é que Anne decidiu se mudar em companhia do marido e, por isso, não pode mais se ocupar do seu velho pai.

A história, baseada numa peça teatral e dirigida por Florian Zeller, poderia ser mais um desses filmes sobre o envelhecimento, em que as pessoas idosas, vítimas de Alzheimer, já não podem cuidar de si mesmas. Porém, sem deixar de lado essa questão fundamental nos dias de hoje, "Meu Pai" toma um caminho diferente. Surpreendente, e bastante perturbador. Ao adotar o ponto de vista de Anthony, envereda por um universo que poderíamos chamar de "kafkiano". Ou seja, aquele mundo que, tido como normal e estável, de repente deixa de responder às nossas expectativas e se instala no domínio do absurdo.

Por exemplo, assistimos a um diálogo muito razoável entre filha e pai sobre como ele irá se virar no apartamento que habita sozinho depois da morte da mulher. Parece apenas uma conversa entre a filha amorosa e um pai renitente. Mas, de repente, o chão parece faltar. Um homem que, para Anthony é desconhecido, lhe diz ser o verdadeiro dono do apartamento. Seria o marido de Anne e Anthony estaria apenas morando com eles de favor. E, para ser franco, atrapalhando mortalmente a vida do casal. A ponto de o suposto genro lhe perguntar, de maneira brutal, quando deixaria de perturbar a filha e a ele. Não é a única e nem a maior das brutalidades que serão praticadas contra o idoso.

Tudo - ou quase - se passa no interior do apartamento. Mas, claro, trata-se de um espaço único, não realista, mas transfigurado pela percepção do personagem, que nunca sabemos se é acurada, distorcida ou delirante.

Produção de qualidade, sólida, mas nada acadêmica, "Meu Pai" concorre ao Oscar em seis categorias: ator com Anthony Hopkins, melhor filme, atriz coadjuvante com Olivia Colman, montagem, design de produção e roteiro adaptado. Seria um grande prêmio para Hopkins, embora Chadwick Boseman continue favorito.