08 de julho de 2026
Articulistas

Ir e ficar

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Estava vazio de si. Carregava, na alma e nos ossos, a dor de ter enterrado o velho pai. De volta para casa, cada passo dado ecoava na cabeça um baque surdo. A memória desgovernada espocava flashes intermináveis de cenas vividas com o pai. Ao entrar em casa, pesou-lhe o silêncio das paredes e, sem saber bem a razão, caminhou pelo corredor escuro até o banheiro. Na pia, chamou-lhe a atenção um copo de metal, ainda guardando alguma espuma. Ao lado, a velha navalha e o pincel de cerdas tortas, algumas falhadas, com que o velho se barbeava em todas as manhãs. Eram objetos aos quais nunca dera a mínima atenção, mas, agora, gritavam lembranças, exigiam ressignificação.

Inertes sobre a pia, começaram a lhe dizer coisas doídas de ouvir. Soubesse ele que era o fim de tudo. Nunca mais teria a companhia do pai de conversa boa e bem humorada. Entre algumas cervejinhas , nenhuma importância tinha o que diziam, contava apenas o prazer de estarem juntos em tardes compridas. Agora estava só, apenas um pincel de barba, um copo de espuma e a velha navalha, mas o pai onde estaria? Pensou na crueldade da morte, sempre fria e burocrática no seu ofício contábil. Nada poderia fazer, senão libertar do peito aquela dor aguda prestes a explodir. Prostrado no chão, rolava e urrava frases desconexas, gritava coisas absurdas, tanto quanto a própria própria morte.

Depois o tempo cicatrizador foi passando e deixando nas coisas do pai um sentimento ambíguo, uma tristeza amarga e doce, também chamada saudade. A velha poltrona no mesmo lugar - ninguém a tiraria dali - os chinelos, os jornais e os óculos no chão. Indiferente às notícias indecentes do mundo, o pai cochilava logo depois das primeiras manchetes. Na parede, a fotografia de uma de tantas macarronadas de domingos. Os olhos marejados do filho corriam para encontrar o pai sorrindo com o copo de vinho erguido na mão. Então, angustiado, indagava porquês irrespondíveis. Nenhuma resposta do escuro mistério, apenas as coisas podiam lhe falar do pai: o chapéu, o suspensório, a bengala, o cantinho, só dele... Era esse, enfim, o jeito possível e bom de tê-lo por perto.

Então, num átimo de segundo, percebeu que ninguém fica na memória por mera gratuidade. Só fica quem tem razão profunda de ficar. Ficam em nós, como doce lembrança, somente aqueles que nos cativaram e perfumaram os nossos dias. A saudade não nasce em solo infértil. Lembrou-se de Cecília Meireles: "Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe o vento vai falando em mim". Bem isso. Nada pode o vento levar de quem passou pela vida sem aprender a florir, sem aprender a perfumar.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.