08 de julho de 2026
Articulistas

Confiança

Gervasio A. Consolaro
| Tempo de leitura: 2 min

A confiança, no final de contas, é um tipo de certeza. Uma certeza que temos em relação a alguma coisa e que não podemos verificar ou demonstrar. Assim, temos certeza de que o sol se põe toda tarde. Isso é confiança no pôr do sol; só que essa confiança não nos interessa. A confiança que nos interessa é aquela que diz respeito à ação do outro. É nesse momento que a confiança entra no nosso campo de reflexão. É fato que, na nossa convivência, confiamos. Não poderia ser diferente, até porque não podemos estar em verificação permanente. O que se que se percebe é que a gente confia o tempo inteiro porque a nossa capacidade de verificação é pífia.

A confiança é um jeito de conviver, assim como a desconfiança, sobretudo porque não somos todos confiáveis o tempo inteiro. Quanta decepção você teria evitado se tivesse desconfiado mais? Quanto parceiro infame, quanto roedor de corda, quanto traidor, em quanta gente indigna você apostou e que o deixou triste, que determinou em você uma queda de potência. Então chegamos aqui a uma situação interessantíssima que o filósofo Edgar Morin chama de complexidade dos valores. Pois, no final das contas, a confiança não é bem um instrumento de deliberação livre sobre a conduta. Você não confia porque quer nem desconfia porque quer. A confiança é uma espécie de resultado de outro critério de convivência, que é a fidelidade. O que você pode escolher é ser ou não fiel, é ser ou não digno de confiança. A fidelidade é condição da confiança que depositam em você. Fidelidade aos próprios valores, àquilo que você deu como garantia, às coisas que você enunciou a seu respeito. A fidelidade, sim, está em nossas mãos. Você poderá ser fiel ou infiel, e a confiança em você dependerá dessa maior ou menor fidelidade.

Quanto à Administração Pública, parece que não desperta mais confiança em ninguém. Será que poderia ser diferente? Afinal de contas, o que ficamos conhecendo sobre o trabalho dos gestores públicos e sobre a administração pública? Principalmente aquilo que a mídia jornalística nos apresenta. Fora disso, é extremamente difícil ter acesso ao trabalho do gestor. E todos sabemos que o trabalho jornalístico é realizado com base em crivos propriamente jornalísticos.

Assim, quando se vai avaliar as informações que se têm a respeito dos governos estadual, municipal ou federal, o que se tem não é o que nos chegou através das páginas dos jornais, dos noticiários da televisão e da Internet.

Por fim, a gente só tem acesso àquilo com que a pauta nos brindou, tomaremos a parte pelo todo - e uma parte enviesada, ideologizada, marcada por intervenções e análises complexíssimas, que limitam nosso olhar e o tornam completamente desconfiado em relação ao contexto completo da administração pública.

O autor é ex-delegado regional tributário de Araçatuba, colabora com Opinião.