Li com atenção o artigo escrito pelo senhor Reinaldo Cafeo, presidente da Acib. Seu argumento, em resumo, é que a constituição da Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público e de Qualidade visa "amordaçar" quem quer pensar "fora da caixa". Diz que o "mundo mudou e quem efetivamente pensa no futuro desta cidade tem que estar aberto ao novo. Quebrar paradigmas é um bom início para que as coisas efetivamente possam mudar".
Concordo totalmente com o senhor Cafeo: como trabalhadora, mulher e negra, sou contra o amordaçamento. Concordo, também, que o mundo mudou e é preciso pensar (e agir) fora da caixa, quebrar paradigmas. O que o senhor Cafeo não percebe é que o paradigma já quebrou. E que ele, Cafeo, é quem se aferra ao paradigma ultrapassado pelos fatos.
Explico: desde 1979 (com a eleição de Margaret Thatcher para primeira-ministra da Grã-Bretanha) e 1980 (com a eleição de Ronald Reagan para presidente dos Estados Unidos), o paradigma dominante no mundo é o neoliberalismo. E a Queda do Muro de Berlim (em 1989) e o fim da União Soviética (em 1991) reforçaram este paradigma neoliberal.
E no que consistia este paradigma? Numa recauchutagem da mão invisível do mercado, de Adam Smith. A busca da felicidade individual supostamente produziria a alegria coletiva. Assim, exaltou-se o lucro, o individualismo, os mercados, o privado. E demonizou-se a solidariedade, o coletivo, o comum e o público. Durante algum tempo, muita gente acreditou nessa fórmula mágica. Mas a realidade é mais forte que as doutrinas e as crises começaram a assombrar o mundo: crise ambiental, crise social, crise econômica, crise política, crise militar, crise ideológica. Uma das crises mundiais mais potentes ocorreu em 2008, seus efeitos nos afetam até hoje. Basta dizer que desde então os Estados Unidos lutam para tentar recuperar a liderança econômica, que vem sendo ocupada pela República Popular da China.
Não é preciso ser comunista, nem é preciso defender o modelo político chinês, para perceber o contraste: Estados Unidos, 328 milhões de habitantes, 570 mil mortes; China, 1 bilhão e 398 milhões de habitantes, 4.636 mortos. Sem falar na economia, dado que talvez comova mais ao senhor Cafeo: 18,3% de crescimento do PIB no primeiro trimestre. Dezoito vírgula três por cento. A crise mundial de 2008 quebrou o paradigma neoliberal. De repente, o Estado foi (re) convocado para salvar o capitalismo dos males causados pelo próprio capitalismo.
E a pandemia da Covid 19 está sendo a pá de cal nas ideias neoliberais, pois lembra que todos vivemos no mesmo planeta e que nossa sobrevivência depende de cooperação, não da competição injustamente atribuída a Darwin, segundo a qual sobrevive quem for o mais forte.
Mas o senhor Cafeo não se preocupe: diferente dos neoliberais, não somos a favor do pensamento único. Na Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público e de Qualidade existem diferentes opiniões, diferentes partidos e a própria existência da Frente comprova que nenhum de nós é contra o diálogo. O que somos contra é privatizar serviços essenciais, como o DAE e a Emdurb. Ideia típica de quem vive no passado, defendendo paradigmas que a história já superou, embora continuem andando por aí, como aqueles zumbis de filme.
A autora é vereadora PT e membro da Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público e de Qualidade