Em um passado não tão distante, a garoupa na nota azul de R$ 100,00 já foi símbolo de 'status' e 'ostentação' para o brasileiro médio. Porém, com a alta de preços e a consequente perda do poder de compra da população, a cédula tem representado cada vez menos itens na sacola do consumidor.
Segundo Filipe Ferreira, mestre em finanças pela USP e diretor da plataforma de informações financeiras Comdinhiero, para comprar o que se adquiria no início dos anos 2000 com R$ 100,00, são necessários, hoje, R$ 357,00. Trata-se de uma diferença expressiva, que demonstra o quanto o custo dos produtos tem pesado no bolso das pessoas. "A sensação que o consumidor tinha ao sacar uma nota de R$ 100,00 naquela época é a mesma de quando ele saca esses R$ 357,00 agora", explica.
Para se ter ideia, de acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o custo médio da cesta básica de alimentos aumentou 23% somente nos últimos 12 meses, avançando de R$ 518,50 para R$ 639,47 no fechamento de março. O valor mais que dobrou na comparação com dez anos atrás: em 2011, os mesmos itens da cesta podiam ser comprados com duas notas de R$ 100,00, uma de R$ 50,00 e outra de R$ 10,00.
Já para encher um tanque de combustível, o proprietário de veículo precisar desembolsar, em média, cerca de R$ 250,00 atualmente, o que equivale a quase um quarto de salário mínimo. Se for abastecer com etanol, o valor diminui para cerca de R$ 170,00, porém, segue acima do que a cédula da garoupa é capaz de pagar.
CHOQUE DUPLO
Por trás dos aumentos assustadores, está um choque duplo de preços. Por um lado, os consumidores precisam arcar com o dólar mais alto e, por outro, com as consequências da alta, no mercado internacional, dos preços de produtos básicos da alimentação e da indústria, as chamadas commodities. Exemplos são a soja, o milho, café, açúcar, carnes e petróleo.
"Historicamente, a arroba do boi era menos de R$ 100,00, mas chegou a R$ 300,00 ao preço internacional. E estes valores das commodities acabam sendo referência para venda no mercado interno. Além disso, tivemos insuficiência de oferta de produtos no País devido à menor produção da indústria no ano passado, aliada à retomada do consumo das famílias após a concessão do auxílio emergencial, o que também pressionou os preços", detalha o economista Reinaldo Cafeo.
E, de acordo com o financista Filipe Ferreira, neste período específico de pandemia de Covid-19, em que os indivíduos tenderam a ficar mais em casa, a percepção de perda de poder de compra é mais acentuada em relação ao gêneros alimentícios, já que os consumidores reduziram gastos com outros produtos, como roupas, calçados, cosméticos e eletroeletrônicos.
"Os preços dos bens de que mais precisamos neste momento acabam subindo de forma mais significativa. E essa vivência, de gastar mais e levar menos, acaba gerando angústia nas pessoas", completa.
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