08 de julho de 2026
Nacional

Isolado e distante de casa

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 4 min

Foi viajar para dar um tempo: era como se dizia antigamente sobre a pessoa que, cansada da rotina, tinha ganhado a estrada - e até o mundo. Atualmente, por causa da Covid-19, o máximo que se pode fazer é planejar. Sem desbravar destinos, explicam os especialistas, a gente ajuda a diminuir os números da pandemia e tem a vida (e as viagens) de volta o quanto antes. Até lá, dar um tempo só se for com a gente mesmo, em turismo de isolamento.

"Isso pode ser seguro sim. Posso me transferir de um grande centro populacional para um lugar onde o distanciamento social é naturalmente mais fácil. É uma opção interessante para quem tem condições, e até recomendável para a pessoa não pirar, mas desde que tomadas algumas precauções importantes", afirma Fernando Aith, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).

O aluguel de imóveis onde se possa estar na natureza, mantendo o distanciamento, passa a ser uma opção em tempos em que a interação entre seres humanos é proibitiva. Casas no litoral ou no campo surgem como alternativa para um turismo de isolamento.

Diante desse cenário e da possibilidade de trabalho remoto, Guilherme Finotti saiu da Capital paulista e alugou uma casinha na cidade mineira de Gonçalves, há pouco mais de um mês. o campo", afirma o advogado, que atua como mediador na área jurídica. "Como viajo muito, a minha ideia é ter uma base em um lugar onde eu goste de estar e usar o Airbnb quando for a São Paulo ou para passar uma semana na praia, em Ubatuba."

Ele conta que, antes da pandemia, não via isso ocorrendo a curto ou médio prazo. "A minha profissão em particular exige um contato humano, não só analítico. Houve a necessidade de adaptação, e a gente percebeu que dá para fazer isso sem perder qualidade. Em um ano, foram mais de 10 mil reuniões na empresa onde trabalho. Isso foi crucial para me dar segurança", conta.

Na era da Covid, tudo muda em uma velocidade espantosa. No entanto, assim como o trio composto por máscara, álcool em gel e distanciamento social, o conceito de anywhere office parece ter vindo para ficar. O escritório, que na expressão em inglês era atrelado ao espaço físico de casa (home), agora pode ser realizado de qualquer lugar com conexão à Internet. Dessa tendência nasceram variações específicas para o turismo, que juntam vacation (férias) com work (trabalho) ou flex (flexível): workcation e flexcation.

De acordo com levantamento da Booking.com, dois em cada cinco (44%) brasileiros estão interessados em combinar trabalho com férias, e quase metade (47%) fez isso ao menos uma vez em 2020. A pesquisa online foi realizada em novembro com 47.728 pessoas em 28 países, sendo quase 2 mil do Brasil. Enquanto a praia é o lugar predileto para workcation para 63% dos brasileiros, 56% desejam ficar em um lugar de natureza onde possam ir a parques. A acomodação divide opiniões: 22% escolhem hotéis e pousadas; 22%, resorts; e 21%, apartamentos, casas ou vilas.

NOVA REALIDADE

No meio de 2020, a professora Helena Costa alugou por duas semanas uma chácara perto de Brasília, na região rural de Paranoá, para curtir as férias dos filhos, Clarice e Eduardo, hoje com 5 e 2 anos, respectivamente. "As crianças correram soltas. Só o fato de ter mais espaço... A gente olhava a imensidão do cerrado, fazia geleia das frutas do pomar", diz a coordenadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (LETS/UnB).

A experiência rendeu pinturas feitas por Helena, que voltou com a família em setembro para mais três semanas. "As donas da casa têm duas aquarelas minhas na parede." Atualmente, como o contexto da Covid no Brasil mudou drasticamente, Helena diz que a situação pede que não se viaje no momento. "Temos de ter nossa parcela de responsabilidade." Ela, no entanto, acredita que muitas pessoas seguirão em trabalho remoto, o que possibilita hospedagens longas quando a pandemia estiver mais controlada.

Foi o que motivou Larissa Castro, professora de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de Goiás a sair de Goiânia em janeiro, em busca de autoconhecimento e saúde mental. "Tirei do papel o plano de virar nômade", conta. Em 2020, ela faria um ano sabático para dar a volta ao mundo, mas veio a pandemia. Ficou em casa até setembro. Quando os números da Covid caíram no Brasil, Larissa botou o carro na estrada e se mudou para Arraial do Cabo, no Rio.

"Escolhi lá porque tinha barreira sanitária: só entrava morador e quem alugou casa. Depois, fiquei em Itamambuca (SP) para aprender a surfar e me mudei para Paraty (RJ) para aprender a velejar. Nem ao centro eu vou", diz, a bordo do veleiro onde ficou por uns dias. "Meu critério é boletim epidemiológico. Os casos aqui estão subindo. Vou voltar para Arraial."