09 de julho de 2026
Geral

Com sedação 'improvisada', pacientes chegam a acordar durante intubação

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Diante da indisponibilidade de sedativos e bloqueadores neuromusculares no mercado, equipes de saúde têm se desdobrado para manter pacientes graves de Covid-19 intubados em condições adequadas. A saída, em muitos casos, tem sido substituir estes medicamentos - mais potentes e modernos - por outros que não garantem o mesmo desempenho, o tem tornado o ambiente das UTIs ainda mais difícil do que costuma ser.

Conforme o relato de médicos que atuam em hospitais públicos e privados de Bauru e que preferiram se manter em anonimato, com frequência, pacientes acabam voltando à consciência durante o período em que ainda estão em tratamento com o tubo orotraqueal, o que gera ainda maior sofrimento para eles, já bastante fragilizados, e também para os profissionais que os atendem.

E, mais do que isso, conforme o JC apurou, esta deficiência da sedação também pode comprometer o tratamento do doente e até mesmo sua sobrevida. Em Lençóis Paulista, por exemplo, conforme o JC divulgou, duas pessoas morreram em 28 de março por falta de bloqueador neuromuscular, fármaco que, entre outras funções, evita que o paciente tente respirar fora de sincronia com o equipamento ventilatório.

CONTENÇÃO

Em algumas situações, conforme descreve um médico intensivista de Bauru, sem o uso de sedativos mais potentes, o doente pode despertar e, por impulso, chega a levar a mão à boca para retirar o tubo, precisando ser contido (amarrado ao leito) até que uma nova dose de anestésicos possa ser aplicada e fazer efeito. "Porém, como não temos à disposição esta medicação que promove uma sedação mais profunda, esse processo pode demorar", revela.

Diante da situação dramática, o governador João Doria informou, em abril, que o Estado tem recebido uma quantidade inexpressiva de insumos, desde que o Ministério da Saúde 'confiscou' parte da produção das empresas brasileiras que fabricam os medicamentos que compõem o 'kit intubação' (leia mais abaixo).

IMPACTOS

O médico intensivista ouvido pelo JC descreve que o paciente grave de Covid-19 demanda um tratamento complexo, com necessidade de estar "bem sedado e, muitas vezes, com bloqueador neuromuscular" durante o período de ventilação mecânica, que dura, em média, de 10 a 12 dias. Porém, diante da escassez dos insumos mais indicados, as equipes têm utilizado outras opções, dependendo do que os fornecedores conseguem entregar.

"Um dia chega um tipo de medicação e a gente usa. Depois de alguns dias, chega outra e a gente vai trocando. É uma adaptação constante e, nestes ajustes, mesmo com todo cuidado, pode acontecer de o paciente acordar. E claro que tudo isso impacta no tratamento. Muitos hospitais têm tido dificuldade para sedar o doente profundamente, algo crucial especialmente no início do tratamento", avalia.

Um médico infectologista de Bauru, também ouvido pela reportagem, acrescenta que o despertar de alguns pacientes também pode estar associado à tolerância que eles adquiriram ao longo da vida a alguns sedativos de classes mais antigas, que voltaram a ser utilizados agora para intubação. "É uma situação péssima e, para os profissionais de saúde, um desgaste psicológico enorme. As pessoas que ainda não entenderam a gravidade desta pandemia precisam saber que há muito sofrimento envolvido e que elas precisam ter mais responsabilidade sobre a necessidade de manter o distanciamento social", completa.