09 de julho de 2026
Nacional

Mães que perderam filhos para a Covid-19 vivem a dor e o vazio

FolhaPress
| Tempo de leitura: 3 min

São Paulo - ''O coração da gente grita, a alma dói. É uma dor tão grande que o corpo da gente estremece", conta Claudiene Souza, 43 anos, enxugando os olhos. Ela é a mãe de Maryan Souza, que morreu de Covid-19 em dezembro de 2020, aos 4 meses. "Só quem passou por isso sabe a dor que é."

Além da bebê Maryan, nascida em Alagoas com síndrome de Down, que amava tomar banho e mamar, perdemos o pequeno cearense Lucas Ricarte, 1 ano, que adorava a Patrulha Canina. Seu xará, Lucas Pires Augusto, 32 anos, que ia começar especialização médica na Flórida. E a pernambucana Adrielly, 26 anos, que estava prestes a realizar o sonho de ser mãe, dando à luz Aylla Vitória.

No Mato Grosso, morreu Klediston Kelps, 22 anos, que ganhou um concurso de poesia com uma performance sobre homofobia. Luiz Fernando, 40, sabia desde cedo que sua vocação era o jornalismo. E, no Rio, Alan Patrick, 38, gostava de tocar violão e dizia que "amar é mais fácil que odiar".

Neste domingo (9), Jessika, 32 anos, Maria de Fátima, 59, Clacy, 67, Elisângela, 41, Edilene, 53, Regina, 54, e Claudiene, 43, as mulheres que os sete chamavam de "mãe", passarão pelo Dia das Mães sem ao menos um de seus filhos.

Não é possível contabilizar com precisão quantas mães enlutadas há hoje no País, mas os dados de morte por idade, coletados no Sivep-Gripe até 3 de maio, dão a dimensão de que elas são milhares. Só na faixa etária de Maryan e Lucas, de 0 a 4 anos, são 775 bebês e crianças mortos. Entre 5 e 19 anos, são mais 830 vítimas. Como Klediston e Adrielly, 3.887 jovens entre 20 e 29 anos morreram por causa da doença.

Na casa dos 30, como Lucas Pires Augusto e Alan Patrick, o número dá um salto: são 13.150 pessoas. Entre 40 e 50 anos, como Luiz Fernando, foram perdidas 28.398 vidas. Acima dessa idade, outras 336.936 vítimas.

"O último Dia das Mães que passamos juntos foi em 2018, em Ribeirão Preto. O Lucas estava todo alegre, nos levou para comer num restaurante", conta Maria de Fátima. Na época, o médico criado em Cataguases (MG) morava no interior de São Paulo, onde fazia residência em neurocirurgia. Depois, mudou-se para o Paraná com a mulher, Camila, e os dois filhos.

Nas datas comemorativas, por causa da distância, costumava telefonar para a mãe. E foi assim que contou para ela que havia contraído o coronavírus, em julho. Após 12 dias na UTI, o médico morreu no dia 8 de agosto, na véspera do Dia dos Pais.

Exatamente um mês antes, em 8 de julho de 2020, seu xará, Lucas Ricarte, ganhava as asinhas de anjo que ilustram a foto de perfil de sua mãe, Jéssika, nas redes sociais. A professora cearense Jéssika conta que engravidou do filho quando já tinha perdido as esperanças de ter um filho biológico. Um dia, começou a ter sintomas de dor de garganta.

Jéssika levou o filho ao médico e conta que, apesar de ter pedido teste para saber se o menino estava com Covid-19, não foi atendida. Dia após dia, o cansaço de Lucas ia aumentando, até que o menino passou mal novamente. Só então foi diagnosticado com a doença e levado para a UTI.