A palavra darma vem do sânscrito e significa propósito de vida, é o braço esticado do Criador a nos indicar o estreito caminho a seguir para cumprir esse propósito de vida. Segundo o darma, todos nós viemos a esse mundo com um talento especial e nossa missão é expressá-lo. Agir nesse caminho permite combinar a capacidade de expressar esse talento em benefício da comunidade em que vivemos. Descobrir esse talento é a nossa segunda necessidade, pois, a primeira é descobrir que temos em nosso interior um lampejo da Luz divina desejoso de crescer e de expressar sua divindade.
Quando nos distanciamos do caminho vertical representado pelo darma, atua o carma, bem conhecido através do ditado "você colhe o que semeia", ou seja, nada do que se deve ao universo fica sem pagamento. Quer gostemos ou não, tudo o que está nos acontecendo agora é o resultado de escolhas conscientes ou inconscientes que fizemos no passado remoto ou recente. O carma é transformador e didático, se manifesta através do sofrimento e da dor e tenta nos empurrar de volta ao caminho de ascensão em direção ao Uno. Assim, quando somos acometidos pelo sofrimento e pela dor, devemos nos perguntar: o que essa experiência está me ensinando, que mensagem o universo está me enviando?
Jordan Peterson, em seu best seller "12 regras para a vida", cita que a vida é sofrimento e um princípio inserido, de uma forma ou de outra, em todas as doutrinas religiosas predominantes. Os budistas declaram isso abertamente. Os cristãos o representam com a cruz. Os judeus homenageiam o sofrimento suportado ao longo dos séculos. Esse tipo de pensamento caracteriza os grandes credos de forma universal, porque os seres humanos são intrinsicamente frágeis. No jogo da vida, ao nos balançarmos entre o darma e o carma, podemos nos machucar e até nos quebrarmos, tanto física quanto emocionalmente e estamos todos sujeitos a degradação do envelhecimento e da perda. Esse é um conjunto de fatos deprimentes e faz sentido imaginar como podemos ter alguma esperança de prosperarmos e sermos felizes em tais condições.
Uma antiga história judaica, retirada dos comentários da Torah, começa com uma pergunta: imagine um Ser que é onisciente, onipresente e onipotente. O que falta para um Ser assim? A resposta: limites! Se você já é tudo e está em todos os lugares o tempo todo, não há mais aonde ir nem mais nada a ser. Tudo o que poderia ser, já é e tudo o que poderia acontecer, já aconteceu. E é por isso, continua a história, que Deus criou o homem. Um ser a Sua imagem, ou que contém o Seu sopro, mas, cheio das limitações impostas pelo estreito caminho do darma.
No Tao Te Ching (O Livro do Caminho e da Virtude de Lao-Tsé 604 - 517 a.C.) há um verso onde fica claro que a existência humana e a limitação estão intrinsicamente ligadas: "Trinta raios convergentes no centro, tem uma roda. Mas, somente os vácuos entre os raios é que facultam o movimento. O oleiro faz um vaso, manipulando a argila. Mas, é o oco do vaso que lhe dá utilidade. Paredes são tijolos com portas e janelas. Mas, somente o vácuo entre as paredes lhes dá utilidade".
É possível ter uma vida feliz quando o Sol estiver brilhando, quando os tempos são bons e as colheitas abundantes. Mas, e o que fazer quando as coisas dão errado ou quando o carma atua? Olhe para cima, para o estreito caminho do darma, se alinhe com as limitações que ele impõe ou com os desígnios de Deus. Coloque as coisas que puder controlar em ordem. Arrume o que estiver desorganizado, pense nas necessidades dos outros e através de seu talento, deixe o que já está bom ainda melhor. Essa é a forma de se obter abundancia e garantir a verdadeira e duradoura felicidade.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp – Câmpus de Bauru - SP