Botucatu - Nesta segunda-feira (17), um dia após o "Dia D" da vacinação em massa da população adulta de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) contra a Covid-19, que terminou com saldo de mais de 65 mil pessoas imunizadas com doses da vacina da Oxford/AstraZeneca, o município iniciou o sequenciamento de todos os casos positivos da doença. A prefeitura começou a analisar os formulários daqueles que não foram vacinados no domingo (16) para ver se eles poderão receber a dose em data a ser definida.
O início do sequenciamento genético de pacientes de Botucatu e outras 11 cidades do polo Cuesta diagnosticados com Covid-19 foi anunciado pelo infectologista Carlos Magno Fortaleza, docente da Faculdade de Medicina e coordenador do projeto de estudo, durante o "Dia D". A estimativa é de que sejam feitos entre 600 e 700 sequenciamentos genéticos por semana. "Começa intensa busca e coleta de dados sobre casos novos de Covid, dos leves aos mais graves, e também sequenciamento viral de todas as amostras positivas colhidas a partir de amanhã (hoje), ou seja, toda pessoa de Botucatu e região que tiver Covid saberá qual a variante que causou a sua doença", explica.
Segundo o médico, novos profissionais foram contratados para esse trabalho. "Nós temos equipe com oito profissionais de saúde e uma coordenadora para colher os dados, ou seja, identificar pormenorizadamente todos os casos de Covid que acontecerem nos próximos seis meses e equipe de seis biólogos moleculares contratada exclusivamente para fazer o sequenciamento genético e identificar a variante em 100% dos casos de Covid de Botucatu e região", revela.
A VACINAÇÃO
Botucatu amanheceu no domingo com uma megaoperação, que contou com mais de 2,5 mil voluntários, além de forte esquema de segurança, que incluiu as Polícias Civil e Militar, a Guarda Civil Municipal (GCM) e o Exército, nos 49 pontos de vacinação. A vacinação em massa, que contemplou pessoas entre 18 e 60 anos, começou às 8h e gerou grande movimentação logo nas primeiras horas do dia.
A primeira imunizada foi a manicure Glaucia Caroline Torres, 33 anos, que atuaria como voluntária e foi imunizada na Escola Cardoso de Almeida, no Centro. "É um sonho ser vacinada, não sabia que seria a primeira. Só tenho a agradecer e rezar para que a vacina chegue para todos no País", declarou.
Logo após a aplicação, ela recebeu um kit com seis pílulas de paracetamol, que também foi entregue para todos os demais vacinados como forma de aliviar possíveis efeitos colaterais considerados comuns da AstraZeneca, como dores de cabeça, no corpo e febre. Uma das cenas que também chamou atenção foi a de uma família que, após ser imunizada, comemorou o momento com direito a foto de todos juntos com a carteirinha de vacinação. "Estamos emocionados, o nosso dia chegou. Esperamos que todas as famílias do Brasil também tenham a mesma sorte", comentou Eliane Sako. A emoção gerada pelo "Dia D" também tomou conta da moradora Cibele de Souza, de 54 anos. "Sou muito grata pelo privilégio que tivemos. Só lamento por não ser para todo o Brasil e pelas almas que já partiram".
CERIMÔNIA
A cerimônia que marcou o início da vacinação contou com a presença do ministro da Saúde Marcelo Queiroga, do prefeito de Botucatu, Mário Pardini (PSDB), do secretário municipal de Saúde, André Spadaro, do embaixador do Reino Unido no Brasil, Peter Wilson, da professora de Oxford, Sue Ann Clemens, da presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade, entre outras autoridades.
"A vacinação é a esperança que temos de conter o caráter pandêmico da Covid-19, e a pesquisa de Botucatu trará respostas não só para o Brasil, mas balizará a comunidade científica mundial", ressaltou o ministro, que abriu simbolicamente o Dia D aplicando a segunda dose do dia na aposentada Suze Helena Crespam, de 58 anos.
Em seu pronunciamento, Queiroga elencou os motivos de a cidade ter sido selecionada para a pesquisa, que conta com parceria do Ministério da Saúde, da Unesp de Botucatu, da Prefeitura de Botucatu, da Universidade de Oxford e da Fundação Bill e Melinda Gates. "Botucatu foi escolhida por critérios técnicos. Primeiro, porque é uma cidade que tem uma universidade pública de excelência. Segundo, porque tem gestão pública muito reconhecida. Deixo claro que essa pesquisa foi aprovada pelo Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa)", pontuou.
Pardini reforçou que a campanha originada pela pesquisa com a Oxford/AstraZeneca só foi possível porque Botucatu se preparou desde o início da pandemia. "Viabilizamos tudo para fazer os testes de PCR, para monitorar os casos positivos e contactantes, e isso tudo facilitou que o estudo fosse aqui", disse.
Sobre a possibilidade de ampliação do estudo para que a vacinação em massa chegue a outros municípios, como Bauru, o ministro respondeu que, até o final do ano, toda a população brasileira será vacinada, se referindo ao contrato firmado com a Pfzier de 100 milhões de doses. Queiroga admitiu que o País precisa, além de vacina, incentivar o que chamou de "medidas não farmacológicas", como máscaras e distanciamento social.
A PESQUISA
Apenas no domingo, mais de 65 mil moradores de Botucatu receberam o imunizante (o número total não havia sido contabilizado pelo município até o fechamento desta edição). Este público será avaliado por um período de oito meses, mas, a partir do 3.º ou 4.º mês de pesquisa, já será possível divulgar resultados parciais. A segunda dose da vacinação está programada para meados de agosto, mas a forma como a campanha ocorrerá (se será em um dia só ou não) ainda não foi definida. O objetivo da pesquisa é verificar a capacidade da vacina em reduzir casos, internações e óbitos por Covid-19. O estudo pretende também avaliar a eficácia da AstraZeneca contra as novas variantes em circulação no estado.
PROTESTO
Na vacinação, grupo formado por estudantes e movimentos sociais protestou pela expansão da vacinação em massa no País. "Estamos aqui para lembrar o morador de Botucatu que a vacina não é passaporte para vida normal, que o resto do Brasil existe e está sem vacina", pondera Thalita Tavares, 34 anos.