10 de julho de 2026
Geral

Ataques escancaram problema cultural potencializado pelo avanço da pobreza

Cinthia MiLanez
| Tempo de leitura: 3 min

A onda de ataques ao patrimônio público, em Bauru, escancara um problema de ordem cultural agravado pelo momento social. Especialistas ouvidos pelo JC descrevem as duas vertentes desse cenário. De um lado, a ideia culturalmente incutida na mente dos cidadãos de que "o público não me pertence, eu cuido da minha vida" leva à naturalização das transgressões. De outro, o empobrecimento da população em virtude das restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus pode provocar atitudes desesperadas na hora de matar a fome. 

É o que avalia o cientista político Bruno Pasquarelli. De acordo com ele, não existe uma variável única para explicar o aumento das ocorrências de furto e vandalismo nos prédios municipais, mas a principal delas corresponde ao crescimento da pobreza. "O último levantamento sobre a fome no Brasil saiu há algumas semanas e apontou que 50% da população enfrenta o problema", acrescenta.

Ainda segundo Pasquarelli, a fome traz consequências individuais e sociais. "Vários estudos sociológicos mostram que a pobreza está diretamente relacionada à criminalidade, porque o desespero leva as pessoas a apresentarem uma tendência maior em criar conflitos", aponta.

O vereador Júnior Rodrigues, que expôs a onda de furtos a prédios públicos na Câmara, também atribui o fenômeno ao empobrecimento da população. "Com a pandemia, muita gente perdeu o emprego e houve uma interrupção do auxílio emergencial por certo tempo, fato que transformou os furtos em uma estratégia desesperada para conseguir colocar comida na mesa", argumenta.

DESRESPEITO

Além desse momento socioeconômico conturbado atual, de acordo com Pasquarelli, os brasileiros, em geral, não costumam respeitar o patrimônio público. Enquanto em alguns lugares mais desenvolvidos vale a ideia de que o bem público é "de todos", no Brasil, muitos acham que ele é "de ninguém".  

"Apesar disso, o comportamento tem melhorado, porque nós não vemos com tanta frequência o pessoal jogar lixo no meio da rua, como há 40 anos. Mas, ainda deixa a desejar", complementa.

O cientista político aponta outros fatores, mas que também foram afetados pela pandemia. "As políticas públicas voltadas para a educação, o emprego, a renda e a segurança pública precisam estar articuladas, mas muita coisa ficou prejudicada por conta da pandemia da Covid-19, que desviou todos os esforços para o combate à doença", reforça.

AUSÊNCIA DO ESTADO

O professor e filósofo Fausi dos Santos, por sua vez, também frisa que o impacto da pandemia sobre a renda da população tem influência nos ataques a prédios públicos. "Em tempos de crise, quando o Estado se faz ausente, a população desacredita ainda mais na coisa pública", defende.

Para o especialista, a vulnerabilidade social decorrente da miséria leva a atitudes desesperadas na hora de colocar comida sobre a mesa. 

Santos menciona, também, a forma pela qual os brasileiros vêem o patrimônio público. "Kant (Immanuel Kant foi um filósofo prussiano) dizia que os chamados imperativos categóricos, ou melhor, os princípios embutidos em nós ao longo da vida mantêm o ser humano dentro da lei, mas não somos ensinados a respeitar a coisa pública", adianta.

Sem uma educação cívica adequada desde o ensino básico, segundo Fausi dos Santos, abre-se precedente para a aplicação do termo "homem cordial", criado pelo historiador e sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda. O seu significado está ligado à aversão às regras e à hierarquia.