Um dos mais cruéis crimes que uma nação pode cometer é deixar seu povo passar fome. E quando essa nação tem poder e riqueza mais que suficientes para alterar essa realidade é, também, escandalosamente vergonhoso. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), dezembro de 2020, revela a volta de um fantasma que deveria apavorar a nossa alma na mesma proporção que cega nossa razão.
19 milhões de brasileiros passam fome, mesmo! E não é por alguma dieta que tenta driblar a engorda na rotina sedentária de brasileiros que habitam a outra ponta dos extremos. Entre as nuances da tragédia da distribuição de renda e oportunidades no Brasil, é prudente lembrar que esses famintos fazem parte das quase 120 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar nesta época de pandemia. Isso representa nada menos que 55% dos nossos domicílios.
Nunca imaginaria voltar a abordar criticamente uma página que parecia virada, com grande mérito de luta, a partir de 1993, pela Ação da Cidadania Contra a Fome e Pela Vida. Movimento que fez o município de Bauru sediar um dos primeiros e mais mobilizados comitês do País graças, destaco o registro, à determinação e visão avançada de mundo da educadora e filósofa Irmã Jacinta Turolo Garcia, aglutinando abnegados voluntários e parceiros.
Nestes tempos, entre as inúmeras conversas que tive o privilégio de usufruir, tanto como jornalista, militante ou cidadão, com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, idealizador da campanha, e Dom Mauro Morelli, arcebispo e presidente do Consea, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, no governo Itamar Franco, uma coisa parecia certa, e foi batata: enquanto a campanha tratava da arrecadação de alimentos, de forma assistencial, mobilizou a todos e a tudo. O que foi bom demais. Mas quando passou a refletir mais a fundo sobre questões como falta de emprego, distribuição de renda e democratização de terras, esvaiu.
Temos medo do quê?
Não precisamos perder para proporcionar ao outro crescer, ao contrário. Quanto mais da nossa gente for bem alimentada, bem informada e bem educada, o mundo será melhor.
O autor é jornalista. Coordenador de Comunicação e cofundador do Comitê Bauru do Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida.