Desço para o velório da servidora municipal Márcia Pestana Mota na manhã de quarta-feira e, ao passar diante da casa na rua Manoel Bento Cruz nº 7-60, ladrilhos expostos na parede frontal, onde antes funcionou por décadas órgão não mais existente na estrutura da Prefeitura, a Casa dos Conselhos Municipais, algo inevitável. Ali ela trabalhou boa parte de sua vida e foi por seu intermédio que o lugar ficou estigmatizado como reduto democrático e de altas possibilidades.
Pessoa de temperamento altivo, forte, resoluto, conseguiu fazer frutificar a ideia de verdadeiro oásis dentro desta cidade, benfazejo para tantas conversações e discussões.
Não existe como, hoje mesmo, vendo na placa ali funcionar escritório de advocacia, pois para mim aquela casa terá por todo o sempre a cara de Márcia e de tudo o que rolou ali dentro.
Isso tudo não tem como ser apagado e nem o tempo conseguirá tal feito, pois seu sorriso e fidalguia está mais do que estampado e embutido, diria mesmo, encravado no ar e pelas paredes.
Hoje, nem os Conselhos Municipais funcionam mais como dantes e gente como a já saudosa servidora, só nos enche de muita saudade, pois era daquelas a comprar briga junto dos temas ali fervilhando.
Márcia teve ao longo de sua vida profissional a inconstância como lema, pois ao observar algo errado, batia de frente, criava caso e assim, quando não conseguia fazer a coisa andar a contento, preferia respirar outros ares. Fez assim por vários setores e departamentos.
Por fim, na Casa dos Conselhos, onde se aposentou, conseguiu direcionar o lugar para algo transcendendo as administrações. Se hoje não existe mais um lugar concentrando essas atividades, os culpados foram conhecidos acabrestadores. Ela não aceitaria isso nem em sonho.
Relembrar isso ao passar ali faz parte do sonho ainda inconcluso desta cidade, hoje muito mais desvirtuado, pois vivemos momento não mais neoliberal, já enfronhado num ultradireitismo doentio, odiento, algo impensável em mentes pulsando algo transformador.
Gente, como Márcia deve padecer um bocado dentro das esferas do serviço público, mas ao se espelharem no que já tivemos de resistência em postos chaves, talvez o reluzir em busca de novos ares.
Que ela nos inspire para isso. Essa guerreira é mais do que motivo para não me permitir desistir de tudo o que ainda temos pela frente.
Viva, Márcia!