Falta de médicos, lotação, espera de mais de seis horas, pacientes com sintomas de Covid-19 no mesmo ambiente que os demais e pessoas saindo sem atendimento. Essa é a realidade caótica das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Bauru, colapsadas em plena pandemia. A Secretaria Municipal de Saúde diz lutar contra o tempo para resolver o problema, que se intensificou após o feriado prolongado de Corpus Christi, quando as UBSs, até mesmo, as sentinelas da Covid, ficaram fechadas. Alguns desses postos, inclusive, também estiveram lotados na manhã de ontem por conta da demanda reprimida.
Titular da pasta, Orlando Costa Dias considera que Bauru já esteja enfrentando a terceira onda da pandemia e o colapso seja reflexo disso. "As quatro UPAs, Bela Vista, Ipiranga, Geisel/Redentor e Mary Dota, têm pacientes com a doença aguardando vagas de internação hospitalar. O 'mini hospital' e os hospitais públicos também estão lotados. Houve, portanto, um aumento preocupante dos casos de Covid-19 da semana passada para cá", justifica.
O secretário também revela que, até o início da manhã desta segunda-feira (7), havia 67 pacientes na rede municipal de saúde aguardando vagas de internação hospitalar, dos quais 39 receberam o diagnóstico de Covid-19. "Paralelamente, nós enfrentamos esse problema nas escalas da equipe médica, que está cansada e com medo de trabalhar, porque sofre ameaças constantes", acrescenta.
Dias aproveita a ocasião para reconhecer o trabalho daqueles profissionais que, muitas vezes, fazem plantões sozinhos nas UPAs. "Tem unidade funcionando com apenas um médico no período noturno. Eu estou desde as 6h (desta segunda-feira) na secretaria para tentar resolver esse problema", observa.
A gravidade da situação é tamanha que a prefeita Suéllen Rosim se dirigiu até a UPA do Geisel na madrugada desta segunda (7). Por volta da 1h, ela esteve no local e adiantou, nas suas redes sociais, que o município faria uma revisão dos contratos junto à Fundação Estatal Regional de Saúde da Região de Bauru (Fersb), responsável por fornecer as equipes às UPAs.
De acordo com o secretário, nos contratos com a Fersb, não existe uma cláusula explícita determinando que a instituição deve substituir os profissionais faltantes imediatamente. "A documentação prevê apenas que a Fundação comunique a prefeitura e nós precisamos mudar essa exigência ou, de repente, contratar outra entidade para assumir a responsabilidade via chamamento público em caráter emergencial, afinal, os contratos das UPAs do Ipiranga e Bela Vista estão para vencer", argumenta.
DRAMA
A reportagem esteve na UPA do Bela Vista ontem e constatou que a situação é mesmo dramática. Além da lotação, havia muitos pacientes com suspeita de Covid-19 no mesmo ambiente que os demais, fato que reforça a necessidade de um Centro de Triagem 24 horas exclusivo para aqueles com os sintomas da doença (leia mais abaixo).
Na UPA, a dona de casa Silmara da Silva Telles, de 35 anos, acompanhava a filha e o neto. Os três apresentavam sintomas de Covid-19, mas só o garoto havia passado por atendimento. "Eu me senti mal na quinta-feira, momento em que tentei ser atendida na UPA, mas a fila estava enorme e deixei quieto".
A auxiliar de cozinha Luciane Camargo, de 43, acompanhava o marido, que apresentava uma dor de cabeça muito forte. "Nós viemos no feriado, mas estava lotado de gente e desistimos".
A estudante Rafaela de Souza Costa, de 16, estava com a mãe, que sofria com uma cólica renal desde domingo (6). "Nós chegamos a passar pela UPA na madrugada, mas não entramos, porque tinha muita gente".
VÁRIOS FATORES
Em nota, a assessoria de comunicação da prefeitura atribui a superlotação das UPAs a diversos fatores, como o fechamento das UBSs, o que sempre ocorre nos feriados prolongados.
Outras razões, segundo o município, são o aumento da procura por testes de Covid-19 na urgência, bem como a falta de médicos nas UPAs do Geisel e Bela Vista.
Além disso, a transferência dos pacientes não relacionados à Covid-19 do PS Central para as UPAs após a criação do "mini hospital" contribuiu para esse cenário.
As UBSs também ficaram sobrecarregadas na manhã desta segunda-feira (7), quando as unidades voltaram a receber pacientes não relacionados à Covid-19 e retomaram a vacinação contra a doença.