08 de julho de 2026
Economia & Negócios

Liberar bermuda é só o começo da transformação digital

FolhaPress
| Tempo de leitura: 4 min

Nas reuniões de Rodrigo Galvão, 36 anos, presidente da Oracle no Brasil, com clientes antes da pandemia, o pensamento predominante era de que o mundo digital nunca venceria o físico. Quinze meses depois, ele diz que gestores, antes resistentes, estão 100% abertos para a migração rumo à nuvem (o que significa, muitas vezes, o abandono total de estruturas físicas como data centers) - e que a cultura corporativa das empresas, aos poucos, vai acompanhar essas transformações.

Para o executivo, a mudança estrutural para o digital vai exigir uma "transformação humana". Para ele, o caminho para essa adaptação envolve uma liderança de coparticipação, com liberdade para que funcionários testem outras áreas de atuação e proponham projetos à empresa.

A pandemia acelerou a digitalização. Isso passou pela contratação de mais serviço de nuvem?

Rodrigo Galvão - Nosso crescimento de plataforma de nuvem cresceu mais de três dígitos. Instituições que, no passado, não se viam em um mundo de cloud pública, hoje migram todos os projetos para a nuvem. Empresas que há 15 meses não tinham esse tipo de conversa, hoje estão 100% abertas. Quando a empresa presta serviço pela nuvem, consegue crescer ou diminuir sua capacidade de processamento conforme a necessidade.

Qual o setor se destacou nessa procura?

Galvão - O de varejo, que foi muito afetado, talvez seja o mais aquecido. Muitos ficaram com 80%, 100% das lojas fechadas, e aí tiveram que fazer a transformação digital de cabo a rabo, desde a infraestrutura para rodar no ambiente de nuvem até a criação de uma plataforma de vendas pela Internet. Só que não adianta migrar se não tiver a aplicação para rodar no mundo digital, ou seja, um canal de entrada do cliente na plataforma.

Muitas empresas estão migrando 100% da operação para a nuvem. O que isso significa na prática?

Rodrigo Galvão - Recentemente, fizemos talvez um dos maiores projetos da América Latina nesse sentido, o de migração de 100% dos data centers da Tim para nuvem, em uma parceria com a Microsoft. Para rodar uma empresa de telecomunicações, por exemplo, é preciso um prédio, talvez dois ou três, com ambiente 100% preparado para receber máquinas, redes de cabeamento e fibra que fazem a interconexão do data center. Quando um cliente entra no site da empresa ou compra um item pelo aplicativo, cada chamado busca a informação no data center. Quando o sistema migra para a nuvem, a empresa não tem mais aquele espaço físico, pode vendê-lo. A estrutura inteira vai para outra empresa, o que reduz custo e aumenta performance.

Esse cenário também vale para pequenas e médias?

Rodrigo Galvão - Aumentou também, porque vimos muitas startups crescerem e entregarem soluções úteis na pandemia, como as de logística, educação, saúde e as fintechs. Aquele conceito de banco que tínhamos no passado recente, por exemplo, já foi por água abaixo. As empresas perceberam que o mundo híbrido vai existir. Daqui para frente, o mundo vai ser híbrido.

A contratação em tecnologia é um desafio no Brasil. Como as empresas podem contribuir para estimular esses profissionais?

Galvão - Ninguém ensina tecnologia na escola pública, infelizmente, e esse é o emprego do futuro. Alguns dados dizem que o emprego em 2035 vai ter mudado em 85% - e eu acredito nisso. Não necessariamente será preciso saber codificar, mas trabalhar no meio digital, com a cabeça digital, e essa não é uma realidade para todo mundo. A gente precisa gerar oportunidade para as pessoas, isso é inclusão. Temos projetos de capacitação interna e para fora. Por exemplo, será que as melhores cabeças só estão nas melhores universidades? Porque, se for isso, estamos ferrados, porque nas empresas só teremos gente dos mesmos lugares. Então, como fazemos isso? Tiramos a obrigatoriedade de contratação de determinadas universidades e fazemos contratação sem viés, entrevista às cegas. Temos projeto para capacitar jovens à distância, jovens que a gente tenta devolver para o mercado, para nossos clientes, e projeto em que chamamos talentos negros para conhecerem e se conectarem com a empresa.

Essas mudanças geraram impacto financeiro?

Rodrigo Galvão - O resultado é crescimento de trimestre sobre trimestre, é exponencial. As pessoas que vendem estão em sua melhor forma, e isso gera mais contratos, negociação. Acredito na liderança da coparticipação. É a base que leva a gente a um lugar diferente, não é o topo.