Ter idade de menos ou de mais tem sido um obstáculo para quem deseja se inserir ou se recolocar no mercado de trabalho. De acordo com uma pesquisa feita pela Mindsight, startup de tecnologia de gestão de pessoas, os profissionais que possuem menos de 17 anos ou mais de 51 anos são os que mais sentem dificuldade para encontrar um emprego remoto durante a pandemia, com 85% e 71% dos entrevistados, respectivamente, concordando com a afirmação.
A pesquisa também mostrou que a maior concentração de desempregados está nessas faixas etárias. Dos mais velhos, 71% disseram estar fora do mercado de trabalho. Já entre os jovens, o índice é de 70%. Entre os entrevistados no levantamento da Mindsight, 66% dos profissionais que têm mais de 51 anos de idade afirmaram já ter vivenciado alguma discriminação etária no mercado de trabalho. Já para aqueles que têm entre 41 e 50 anos, o índice cai para 43%.
O grupo menos prejudicado, segundo o levantamento, é o de pessoas entre 25 e 30 anos. Eles ocupam a última posição no ranking de desemprego, com 58%. Esses profissionais também são os que têm tido menos obstáculos para conseguir um emprego remoto durante a pandemia, com apenas 21% dos respondentes relatando ter dificuldades.
A experiência profissional ou a falta dela também têm sido um empecilho na vida de quem procura um emprego. Entre os respondentes da pesquisa, a taxa de desemprego é maior entre estagiários, 68%, e profissionais em cargos plenos, 65%. Já no topo da hierarquia, o índice cai para 59% em posições C-level (nível de liderança) e para 68% nos cargos de especialistas e gerentes.
Enquanto 81% dos profissionais em cargos júnior ou de estágio relataram já terem perdido oportunidades por não cumprirem todos os requisitos da vaga, 46% daqueles que estão em nível sênior ou C-level disseram já ter precisado omitir suas habilidades para concorrer às vagas ofertadas, já que o currículo pode demandar uma remuneração mais elevada.
Publicitária há 25 anos, Maria Vianna construiu uma carreira que lhe possibilitou ser uma profissional completa. Ela já atuou em todas as frentes do processo de comunicação e marketing, trabalhou em Miami e com empresas de diferentes ramos no Brasil. No ano passado, já em cargo de alta gestão, foi demitida. Começou, então, uma jornada de autoconhecimento, redescobertas e aprendizados para buscar uma recolocação no mercado de trabalho. "Conseguir ser recolocada é consequência de tudo o que você vai aprender", diz.
Sim, do que ainda se vai aprender ao lado da bagagem já adquirida. Em cargos de alta gestão, a recolocação profissional não é uma simples busca de emprego. "É um processo intenso e personalizado de entendimento das múltiplas variáveis que passam pela vida da pessoa, por tudo o que já foi construído do ponto de vista de conhecimento, experiência, soft skills", explica Guilherme Petreche, co-CEO e fundador da Woke, empresa especializada em recrutamento de altos executivos.
Todo esse refinamento já necessário ganha novo sentido em um ambiente economicamente recessivo, trazido pela pandemia. "Na atual conjuntura, há número menor de oportunidades profissionais versus pessoas disponíveis", observa João Marcio Souza, CEO da Talenses Executive, empresa do Talenses Group especializada em recrutamento C-level. Para ele, esse é um momento difícil para médias e altas gestões.
Por outro lado, o diretor da área de executive search da Robert Half, Mário Custódio, nota que houve mudanças em algumas posições pela necessidade de adequação de perfil ou por alterações no planejamento estratégico, além da criação de novas posições de nível executivo. Das vagas de alto escalão trabalhadas pela empresa no início deste ano, quase metade foram contratações para novas posições.
Para quem busca recolocação, um acréscimo à compreensão de si e desse cenário é acompanhar o mercado, principalmente quando se fica longos períodos na mesma empresa. Foi o que ocorreu com Maria Vianna, de 43 anos, que estava havia sete na mesma organização. Ela diz que se sentia "acomodada" porque conhecia bem o negócio, tinha cargo alto e ganhava bem.
"Na tarde em que fui demitida, me permiti ficar no meu momento, mas, no dia seguinte, comecei a falar com muitas pessoas, não só para pedir um emprego, mas para entender como estava o mercado", ela relata.
Para Petreche, da Woke, mais do que a recolocação, é preciso entender em que direção o mercado está indo e o nível de empregabilidade da pessoa. "É aproveitar todos os elementos que ela construiu e transpô-los para um projeto de longo prazo que continue gerando valor, para que a carreira tenha longevidade e perenidade", afirma ele.