08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Amigos que cuidam de nós

José Marta Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Todos passamos por turbulências em nossas vidas. Alguns são acometidos por doenças graves e lutam para sobreviver. Outros não possuem trabalho. Mas elas (as turbulências) nos preparam para superação de todos os desafios, inclusive aceitar que somos mortais. Quantas vezes passamos por situações estressantes e, em seguida, já não nos incomoda tanto. Em 2015, um piloto militar chamado Keith Tonkin disse que não é necessário temer as turbulências. E completou: "Evitamos a turbulência porque cria estresse nos passageiros. Mas para os pilotos não há qualquer problema". Sugeriu que muitos problemas podem ser encarados como algo temporário, não eterno. Claro que se pudermos contar com "pilotos" experientes e amados ao nosso lado, o "voo" fica menos assustador. Mesmo que sejam eternos.

Certa vez, Madre Teresa de Calcutá vê uma mulher moribunda que foi levada ao hospital minutos antes. Levanta o lençol que a cobre e fica impressionada. Trata-se de uma jovem muito debilitada. Madre Teresa, mesmo sabendo que tudo era irreversível, reanima-a com atenção e carinho. A moribunda com voz apagada lhe pergunta: - Porque fazes isso? Teresa lhe responde: Porque eu te amo. Um flash de felicidade ilumina o rosto da moribunda, que lhe suplica: Por Favor, me diga novamente. Eu te amo, repete Teresa. A frágil mulher aperta as mãos de Madre Teresa entre as suas, enquanto sua vida se esvai, pouco a pouco.

Recentemente tive um diagnóstico de um câncer agressivo que, apesar do sofrimento, me aproximou de muitos e muitas "Teresas de Calcutá". Uma delas, ao saber da minha doença, fez a intenção de oferecer cem marmitas para pessoas com fome. Hoje estou curado, e ela cumpriu sua promessa. Muitos amigos falavam constantemente comigo; um deles me ligava todos os dias querendo saber como eu estava e afirmava que eu "sairia dessa" com a intercessão do Sagrado Coração, Padre Vitor e Padre Donizete. E eu pergunto: porque tantos amigos estiveram ao meu lado nessa turbulência, queridos e queridas amigas? A resposta é a mesma que Teresa de Calcutá deu à moribunda.

Dentre as emoções que tive no período da doença, a presença e o cuidado que recebi dos meus dois filhos, médicos oncologistas no Sírio Libanês, me fizeram acreditar que que seria curado, Nossa! Voltando no tempo, lembro-me das muitas vezes que os protegi quando crianças e não imaginava que um dia eles me "carregariam" num momento de incerteza com o câncer, em plena pandemia do Coronavirus. Lutamos, mais eles que eu, e hoje me encontro sem essa doença. Porque fizeram isso? Madre Teresa me responde: Porque eles me amam. Eles me amam e eu os amo.

A cura da doença, a energia emanada da minha família e amigos me fizeram entender melhor o que Madre Teresa de Calcutá sentia ao dizer: Senhor, quando eu tiver fome, dai-me alguém que necessite de comida. Quando tiver sede, dai-me alguém que precise de água. Quando sentir frio, dai-me alguém que necessite de calor. Quando tiver um aborrecimento, dai-me alguém que necessite de consolo. Quando minha cruz parecer pesada, deixai-me compartilhar a cruz do outro. Quando me achar pobre, ponde a meu lado alguém necessitado. Quando não tiver tempo, dai-me alguém que precise de alguns dos meus minutos. Quando sofrer humilhação, dai-me ocasião para elogiar alguém. Quando estiver desanimado, dai-me alguém para lhe dar novo ânimo. Quando sentir necessidade da compreensão dos outros, dai-me alguém que necessite da minha. Quando sentir necessidade de que cuidem de mim, dai-me alguém que eu tenha de atender. Quando pensar em mim mesmo, voltai minha atenção para outra pessoa. Tornai-nos dignos, Senhor, de servir nossos irmãos que vivem e morrem pobres e com fome no mundo de hoje. Dai-lhes, através de nossas mãos, o pão de cada dia; e dai-lhes graças ao nosso amor compassivo, à paz e à alegria.