08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ser ou parecer

Cecília Costa
| Tempo de leitura: 2 min

Outro dia, li uma notícia que me chamou a atenção. Um homem invadiu o casamento de sua amante vestido de mulher. Esse fato ocorreu na Índia, onde os casamentos, considerados sagrados e imutáveis, são realizados de forma grandiosa e repletos de tradições. Os trajes usados possuem cores vibrantes. O noivo usa turbante e a noiva se enfeita com muitos adornos. Apesar de todo o esforço, a farsa foi literalmente desvendada, o amante descoberto e expulso da cerimônia.

Porém, o plano em questão não é nada inédito. No ano 62 a.C., durante a festa anual em homenagem a "Bona Dea" (boa deusa), reservada apenas para mulheres, realizada na casa de Júlio César e organizada por Pompeia, sua bela esposa, o jovem Publius Cloudius, apaixonado pela mulher de César, entrou na festa vestindo trajes femininos para ficar perto de sua amada, mas foi descoberto e expulso.

O resultado deste fato foi o divórcio de César e sua esposa, justificando que a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita, e isso deu origem ao provérbio que conhecemos: "não basta ser honesto, tem que parecer honesto".

Refletindo sobre honestidade, justiça e integridade, veio-me à mente o "Mito de Giges", pois a empreitada dos dois apaixonados só teria tido sucesso se eles possuíssem o anel de Giges para torná-los invisíveis.

Platão, em sua obra "A República", relata que Giges era um pastor, honesto, trabalhador, justo e íntegro. Após um tremor de terra, uma fenda se abriu no chão e Giges entrou na cratera, descobrindo objetos enterrados, dentre estes um anel, passando a usá-lo.

Ao participar da reunião para prestar contas ao rei, involuntariamente virou a pedra do anel para dentro da mão e ficou invisível para os demais. A reunião continuou como se ele não estivesse ali. Virando o anel, tornou-se novamente visível. Giges, para ter certeza do que tinha acontecido, testou várias vezes o anel e percebeu que funcionava. Seguro de si, matou o rei e se apossou do castelo e da rainha.

Platão afirma que é difícil encontrar alguém que permaneça fiel à justiça quando se tem poder. Assim, provavelmente um anel como este no dedo de um justo ou um injusto produz o mesmo efeito. E nós no lugar de Giges, o que faríamos?

O poder pode corromper o homem, mas a justiça é uma das maiores virtudes que o ser humano possui. Ela nos faz buscar a igualdade entre as pessoas, respeitar os direitos do ser humano, estabelecer relações harmoniosas e desejar o bem comum.

"Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles..." (Mt. 6, 1).