Não. Nada. Nonada. Ninguém. Nunca. Nenhures. Estou apresentando o livro "Os poemas de entrega", de Límerson Morales (Editora Medusa, Curitiba - 2020), e Límerson é o poeta do não. É o poeta do silêncio. Límerson é um performer. Performer do silêncio. Encara o público com os olhos esbugalhados, ou pior, com um não-olhar. Você espera a palavra e a palavra não vem. E você não fica decepcionado. Fica paralisado por aquele olhar e por aquele silêncio. A poesia de Límerson é a poesia do não. É uma poesia que, embora se sirva de muitas palavras, não diz muito. Límerson é o poeta do silêncio. É o poeta do nonsense. Portanto, não procurem sentido na sua poesia.
Não que Límerson não fale: a sua voz é um vozeirão, é como um trovão. Mas o silêncio é essencial para a poesia. Assim como a palavra, porque poesia se faz com palavras (não com ideias, muito menos com sentimentos), já nos ensinava Malarmé. O silêncio e a palavra são essenciais na poesia de Límerson. "Não haver silêncio algum entre os chapéus caía bem", diz. "O movimento do calor em silêncio é de vento", lemos em "A mesa dos objetos". As coisas são mais importante, os objetos, em lugar do sujeito. Nada de subjetivismo. "Hoje começou a fome danada no interior das coisas novamente". Das coisas, e não de nós.
"A ausência de silêncio na beleza", diz. A beleza vai nortear os poemas de Límerson. "Mas tudo o que sei dos reflexos / está correndo igual cachorro / vermelho igual coelho / por incompletude amorosa". Vejam que beleza de imagens. Isso é poesia concreta. Imagens com elementos concretos. Terminando o livro, diz: "Escrevo poesia e faço a publicação disso/ adiante de pessoas buscando risadas". E as risadas não vêm. Vem o silêncio. O nonsense. Tem muito nonsense na vida. "Dá um passo e desaba igual silêncio no palco". O silêncio por tudo. E lembremos que a vida é um palco, um picadeiro. A palavra é necessária. "Circula entre os músculos sem a palavra óbvia", diz.
No poema "Cavalos" exibe um de seus mais fortes achados: "Cavalos mordem as maçãs do rosto." Poesia pura, grande poesia. Diz: "É a graça daquela palavra na realidade". Sabemos que estamos não apenas no reino do nonsense, mas da poesia mais pura. Tem um poema chamado "Um homem invisível por dentro". É a coisa mais normal que o homem é invisível por dentro, mas é totalmente original dizer isso na poesia. Límerson é mais original do que parece. Dialoga com uma das peças mais conhecidas de Pirandello: "Seis personagens à procura de um ator", para ele "Seis personagens à procura de uma dor". O d e o t (de dor e ator) são consoantes linguodentais, confundem-se facilmente. Límerson chegou aparelhado à poesia. Tenho o prazer de saudar este poeta que chegou para ficar.