08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A crise na saúde

Osvaldo Gradella Júnior
| Tempo de leitura: 3 min

Três notícias no JC desses últimos dias relacionadas à saúde chamam a atenção e causam preocupação com o destino do SUS em Bauru. A primeira delas (sábado, dia 5/6) em que a Comissão de Meio Ambiente, Higiene, Saúde e Previdência e o Sinserm reivindicam que a SMS participe do programa "Saúde com Agente". A formação dos agentes é fundamental para o SUS, pois os habilita a analisar, compreender e planejar atividades no território em que atuam. Esse é pressuposto fundamental do SUS que possibilitaria uma política de promoção de saúde na Atenção Básica que, segundo os dados da OMS, garante atenção e resolutividade de 80% dos problemas de saúde da população, evitando o acumulo no setor terciário: a hospitalização.

Uma notícia do jornal Folha de São Paulo em 12/08/2020 já demonstrava que municípios com atenção básica forte e bem estruturada faziam diferença no controle da pandemia. Por um breve período nos anos 1980 (anterior ao SUS) se teve uma perspectiva concreta de saúde pública para todos em Bauru e que posteriormente foi ignorado pelos diversos gestores. Para piorar a situação, a outra notícia (domingo, dia 6/6) se remete a colocar nas mãos das igrejas e empresas o cuidado das unidades de saúde. A função das igrejas é outra e elas não teriam a tendência a privilegiar atendimentos aos seus fiéis, tal como ocorreu no Rio de Janeiro? E quando os valores religiosos forem contrários aos conhecimentos científicos, qual seria a postura da igreja que participa do cuidado em saúde? Por sua vez, o princípio empresarial é o lucro e as medidas de cuidado em saúde tem como princípio a vida: o processo de pandemia demonstrou qual princípio tem prevalência nas decisões.

Essas relações são perigosas e o prejuízo é sempre da população. A ingerência nas atividades vem na sequencia e prejudicam a implementação das políticas públicas. A separação do Estado e da Igreja se colocava como uma forma correta para governar a partir da Proclamação da República e é um desrespeito ao cidadão o retorno a essas relações nebulosas. Os que se propõem representantes do Estado em todos os níveis deveriam ser os primeiros a defender a laicidade desse mesmo Estado. A última notícia (domingo, 6/6) é a entrevista da atual presidente do Conselho Municipal de Saúde, que defende o SUS e a Política Nacional de Vacinação em uma postura ingênua, sem avaliação crítica desse processo e do desmonte e diminuição do financiamento do SUS implementado pelo governo federal e sem uma avaliação da saúde em Bauru.

Mesmo sem intenção, essas ações e posturas vão implodindo o SUS cotidianamente e manipulando os discursos em favor das diversas formas de privatização da saúde pública. O SUS sempre teve muitos inimigos, por um lado os setores privados da saúde e por outro, a concepção do processo saúde-doença centrada no biológico e na medicação, ignorando as múltiplas determinações na produção da saúde/doença e as diversas possibilidades de promoção da saúde.

Não é uma crise financeira, mas sim de modelo de saúde avesso aos princípios do SUS. O setor terciário sempre foi mais caro e para evitar isso é necessário criar as condições necessárias para que a população não adoeça, pois a maioria das doenças é oriunda do espaço urbano deteriorado, que produz doença ao invés de condições saudáveis, p.ex.; a dengue não é um problema do indivíduo, mas do descuido com a cidade (asfalto ruim e com buracos, lixo em terrenos etc.) que acaba atingindo sempre a população com maior vulnerabilidade. Os dados socioeconômicos de quem são os milhares de mortos nessa pandemia demonstram essa realidade. O conhecimento produzido na reforma sanitária, pela saúde coletiva, pela epidemiologia e pela saúde pública já demonstrou que o caminho é a atenção básica e a atenção multidisciplinar.

Viva o SUS laico, público, gratuito, de qualidade, aberto e de base comunitária!