07 de julho de 2026
Ser

Bom mesmo é bordar

Gilberto Amendola
| Tempo de leitura: 2 min

A pandemia fez com que a terapeuta corporal Beatriz Farinazzi Vollet, 37 anos, se sentisse exausta, desanimada e identificasse outros claros sinais de depressão em sua rotina. Com a intenção de "desanuviar" do noticiário e "deixar de caraminholas", ela buscou uma atividade em que pudesse "extravasar sua energia e criatividade", e que, ao mesmo tempo, tivesse um "quê" de introspecção e meditação.

Beatriz encontrou no bordado tudo o que precisava. Assim como ela, outros descrevem a experiência com as agulhas como uma "terapia", "um caminho para o autoconhecimento", "um exercício de respiração" e outras definições que seguem por esse mesmo caminho.

O bordado, que hoje atrai um público jovem e interessado em autoconhecimento, tem origens pré-históricas, atravessou todas as civilizações antigas (Egito, China, Pérsia, Índia...) e pode até ser encontrado em passagens bíblicas.

A visão romantizada e machista de mulheres submissas que tecem longos bordados enquanto seus maridos lutam em alguma guerra não poderia estar mais desatualizada. O Clube do Bordado, por exemplo, iniciou sua trajetória de sucesso em 2014, com uma coleção de bordados "soft porn" - que representava a sexualidade do ponto de vista feminino. Hoje, o clube tem mais de 230 mil seguidores no Instagram e 7 milhões de visualizações mensais em seus vídeos e aulas no YouTube.

"Nos primeiros meses da pandemia, houve um 'boom' de procura por cursos de bordado. A gente ganhava, em média, 10 mil seguidores por semana", falou uma das idealizadoras do Clube do Bordado, Renata Dania, 34 anos. "As pessoas estão buscando ferramentas para ficar bem. O bordado tem um efeito meditativo comprovado", completou.

VIVER DE BORDAR

Renata também apontou o bordado como uma ferramenta de empreendedorismo. "É uma consequência natural. A pessoa posta uma foto de um bordado que fez nas redes sociais. Aí, algum conhecido gosta e faz uma encomenda. Temos muitas alunas que começaram assim e hoje criaram perfis em redes sociais e vivem disso", contou. "O investimento é muito baixo. Com R$ 30, você já pode comprar linha, tecido e agulha", apontou.

Para Maria Fernanda Narciso, 31 anos, fundadora da Casa Beta, uma plataforma que abriga uma série de cursos online, o público do bordado é "contemporâneo, moderno, jovem, não necessariamente cis (que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu) e feminista. São pessoas que expressam sentimentos e emoções por meio do bordado. E que também usam a técnica como um relaxamento, algo capaz de acalmar a mente e criar foco", contou.