08 de julho de 2026
Articulistas

A ferrugem da rotina

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Casal que não dribla a rotina pode encomendar o caixão: o casamento morreu. Era o que sentenciavam os participantes de um desses programas babacas de tevê, que enrolam a gente à tarde inteira. Em cada dez entrevistados, onze afirmavam, arrogantemente, a mesma coisa: só serão felizes os que souberem driblar a ferrugem da corrosiva rotina.

Muito me coçando e mal parando na poltrona, eu era um poço de irritação. Como assim? Se a casa é a mesma, a cama é a mesma, o banheiro é o mesmo e a mulher é a mesma, como evitar a mesmice? O espaço doméstico é, por natureza, repetitivo. As contas da casa sempre aumentando, a válvula da privada vazando, a goteira pingando e a gente trombando com a mulher o tempo todo... Como, Santo Deus, driblar a rotina? Nem o Neymar consegue. Isso sem falar dos modelitos usados na intimidade fashion: o velho e surrado pijamão, a meia e a camiseta furadas, a camisola desbotada, a cabeça cheia de bóbis, a cara desmaquiada, a barba por fazer... Gente, não tem jeito não: quem casa, casa com a rotina também. O resto é papo idiota dessa tevê horrorosa que fica enrolando a gente nas tardes vagabundas.

Então, pensei com os meus botões: acho que eles erraram o assunto. Eles não perceberam ainda, mas é de namoro que estão querendo falar. Namoro é coisa boa e diferente, nem sei por que as pessoas se casam. Cada um na sua casa, no seu banheiro, na sua cama, tevê e controle remoto exclusivos. Pizza a gente pede de um sabor só, isso é ser dono do próprio nariz e da boca também. E tem mais, pode fazer a bagunça que quiser: juntar uma montanha de louças sujas na pia, esquecer a toalha de banho na cozinha, largar sapatos em cima da mesa, prato, garfo e faca no sofá, pode tudo que não tem bronca não. E, quando os pombinhos se encontram, jamais será nos corredores da casa, mas em restaurantes, bares, cinema, teatro, baladas... E estarão devidamente arrumados e perfumados, bem diferente do jeito mendigão que a gente fica em casa. Claro que estou falando de namoros normais, desses que terminam logo.

Um dia resolvi comprar duas passagens para Cancun. Um amigo havia me dito que não tinha erro, Cancun era o paraíso salvador dos casais enrotinados. Minha mulher se animou. Voamos para a ilha dos sonhos. O mar era de um azul profundo com o sol faiscando prata na areia fina. No resort, aliás encantador, a gente podia comer e beber de graça, dá pra acreditar?

Tudo lindo e maravilhoso, mas havia um detalhe. Eu não sabia que, nas malas, além das roupas, tínhamos trazido um caminhão de problemas mal resolvidos e ressentimentos antigos. Então, o vinho que deveria cumprir um papel romântico, depois de algumas taças, virava vilão e destampava tudo de ruim que estava represado em nós. Discutimos no restaurante, na praia, nos passeios e até na cama. No outro dia, levantávamos arrependidos e prometíamos um ao outro que, dali pra frente, tudo seria diferente. Aproveitaríamos a praia, o sol, o mar, a comida, a bebida e até o amor se ele aparecesse por lá. Para nossa segurança e a dos vizinhos da nossa mesa, trocamos o vinho por refrigerante. Resolveu? Nadinha, a guerra continuou bem pior e com Coca Cola.

Por que, Deus meu, não ficamos na nossa casinha? Nós três, eu, minha a mulher e a rotina, que, se não é nossa amiga, ao menos da família já é. Burrice subir em avião dolarizado para se estressar em terra estrangeira. E, pior, em dez prestações mensais de tirar o couro.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais