11 de julho de 2026
Articulistas

Os limites da cultura no mundo atual

Sérgio Mauro
| Tempo de leitura: 4 min

Qual é o real alcance da cultura no mundo atual? A quantidade impressionante de informações despejadas cotidianamente é realmente necessária? Se Dante Alighieri, um dos homens mais cultos do seu tempo e um dos maiores poetas da humanidade, pudesse aportar no nosso tempo, em algum país europeu ou em qualquer outro, certamente ficaria abismado com o que chamamos de cultura e informação.

Certamente ultrapassamos e muito os limites que o divino poeta estabelecera para o seu personagem Ulisses no Canto XXVI do Inferno. Não fomos punidos com a morte por naufrágio por termos desejado alcançar a montanha do Purgatório, mas o nosso conhecimento científico atingiu níveis inimagináveis, não apenas para um intelectual da Baixa Idade Média, como também para a geração que assistiu abismada ao desenrolar dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Dante construiu uma estrada para a salvação da humanidade ao longo da Divina Comédia. Ao contrário do que pensam muitos, não consistiu apenas no constante apelo à renúncia aos bens materiais terrenos, certamente presente na obra, mas também em uma aplicação rigorosa das leis e na divisão de poderes. Em poucas palavras, embora a importância da salvação da alma, dentro da perspectiva cristã do poeta italiano, ocupe um papel central, é a garantia da paz e de um governo justo, capaz de distinguir o bem do mal, que pode salvar a humanidade, evitando que sucumbamos às tentações dos bens falsos e assegurando ao menos um lugar no Purgatório, reino das promessas futuras de liberdade e de sublimação das paixões que nos atormentam.

Podem parecer simplistas as soluções que apontam clássicos como a Comédia de Dante e outros para que alcancemos uma era de prosperidade e de equilíbrio. Na realidade, poetas do nível de Dante nos alertam o tempo todo para a responsabilidade dos que detêm o conhecimento e a verdadeira cultura. O problema é que nos tempos atuais o nosso nível de conhecimento atingiu um patamar inegavelmente fantástico no que diz respeito ao conhecimento da natureza que nos cerca, como desejavam séculos atrás gênios como Leonardo da Vinci, Galileu e Newton, mas não chegou, e talvez nunca chegará, a obter respostas para as questões que nos afligem desde que o primeiro hominídeo desceu das árvores e passou a cozinhar a carne no fogo.

Trata-se de um esforço que parece abandonado pelos filósofos e poetas ou delegado às inúmeras seitas religiosas ou pseudorreligiosas que prosperam pelos quatro cantos do mundo. Tanto se falou, e ainda se fala, da recente pandemia e de como combatê-la ou evitá-la, mas evita-se a discussão sobre o mistério que está por trás dos inevitáveis ciclos de destruição aos quais as forças naturais nos submetem. Temos que aceitá-los resignados ou apenas nos prepararmos com vacinas e outras "armas" para o próximo combate com novos vírus, bactérias ou tsunamis e terremotos?

Evitar a reflexão sobre este espinhoso tema ou relegá-lo ao ambiente acadêmico ou às seitas esotéricas ou religiosas, parece-me até irresponsável. Talvez nunca cheguemos a respostas definitivas, mas não podemos desistir da luta.

Mais do que nos livros sagrados ou nos tratados filosóficos ou científicos, devemos mais do que nunca buscar possíveis respostas nos grandes clássicos da literatura universal. Cabe-nos, porém, a difícil tarefa de fazê-los falar aos nossos ouvidos entupidos com milhões de dados despejados diariamente pela mídia, pela internet e pelas redes sociais. A nossa vida prática aparentemente não tem nada a ver com os livros empilhados nas prateleiras. No entanto,se estivéssemos dispostos a torná-los parte da nossa vida cotidiana, muita coisa poderia mudar efetivamente.

Eu poderia listar centenas de exemplos de como as palavras de Dante e outros clássicos falam diretamente com nosso tempo e nossos problemas. Bastaria mencionar, entre muitas outras, duas passagens famosas: uma do "Paraíso" da Comédia e outra de Macbeth de Shakespeare. No início do canto XI do Paraíso, conhecido por narrar o encontro entre o personagem viajante Dante e St. Thomas Aquino, que por sua vez lhe conta a história de outro douto e santo, São Francisco de Assis, o eu poético ou o viajante-poeta refere-se às belezas do paraíso e, com uma ponta de sarcasmo, lembra o cotidiano cheio de "ruído" dos pobres mortais, sempre ao redor com as tentações do egoísmo, ambição ou com os desejos da carne. Em Macbeth,depois de tanto sangue derramado para obter o poder, o personagem conclui que a vida é um acúmulo de ruído inútil e louco, aparentemente sem sentido.

Em ambas as passagens, portanto, os dois grandes poetas parecem nos lembrar o quanto fazemos de barulho inútil, sem sentido. No contexto atual, tais palavras vêm como um sábio aviso de que podemos deixar de lado tanta confusão e voltar ao silêncio, isto é, à reflexão que é fruto da calma e da paciência. As palavras que os dois bardos colocam na boca dos personagens servem como ensino precioso e devem deixar de ser apenas fonte de ensaios e teses acadêmicas,tornando-se uma referência, uma espécie de manual elaborado para repensar nosso jeito barulhento de vida.

Dante, Shakespeare, Cervantes e tantos outros deveriam pular das prateleiras e literalmente cuidar de nossas vidas, nos guiando pelo inferno da vida cotidiana. Não vejo outra maneira mais sensata de ver uma luz no fim do túnel. Ainda temos tempo, mas é bom começar logo!

O autor é professor doutor na Unesp de Araraquara.